Domingo, 25 de Maio de 2014

 

(conto às prestações)


2.

 

«Estavas com o Pedro… Mas como é que eu iria saber se vocês estavam bem? Das últimas vezes costumavam vir falar aqui para o parque infantil do condomínio antes de se despedire…»

«Mãe, será que eu estou a ouvir bem? Tu costumavas espiar-nos, mãe?! Eu não acredito que tu costu…»

«Não vos espiava nada, rapariga, não sejas ridícula. Somente tenho o hábito de dar uma olhadela ao parque enquanto faço o jantar e tinha reparado que vocês…»

«Não precisas de te justificar, mãe, eu entendi perfeitamente o que tu…»

«Sofia, não sejas malcriada! O que estás para aí a fazer? Vem jantar antes q..»

«Já vou mãe, já vou! Deixa-me aos menos trocar de roupa em paz...»

A Srª Isabel, que se mantivera ao longo da conversa a dois passos da entrada da cozinha, voltou ao recolhimento da mesma. Como a pobre aventureira que desespera por reencontrar a bússola perdida, ou como o seu cabelo anárquico que suplica pelo regresso do elástico que lhe devolva a forma e lhe dê um sentido, a Srª Isabel esperava novamente pela filha e dir-se-ia que pela filha estaria sempre pronta a esperar.

Quando Sofia entrou na cozinha, vestindo uma sweat desportiva branca, de carapuço, o logótipo de pelúcia vermelha levemente ondeado pelos infantis peitinhos de quem a vestia, dirigiu-se à banca, lavou e enxugou as mãos e sentou-se à mesa, ignorando, mas de um modo estranhamente não ostensivo, próximo até da delicadeza, a outra pessoa que por lá estava.

«Sofia, tens a pele enrugada do frio. Por onde diabo andaste com esse rapaz? Estamos em Fevereiro, meu Deus, o tempo não está para andarem por aí a passear pela Avenida dos Banhos como se…»

«Mãe, podes passar-me a quiche, por favor?», interrompeu, dando a ideia de nem estar a ouvir o que a mãe dizia.

«Não irás tu manchar mais essa camisola? Ainda ontem a passei a ferro. Vê se tens cuidado. A tua mãe está farta de… Sofia, estás a ouvir?»

Numa sala de cinema escondida algures na sua mente, a conversa com Pedro tinha sido rebobinada e era de novo exibida, captando toda a sua atenção. Era ainda com ele que ela dialogava. Depois de fazer o pedido à mãe, pegara no telemóvel e encontrava-se distraída a enviar-lhe uma mensagem. A sms dizia:

 

Tu consegues mesmo deixar uma pessoa deprimida.

 

«Sofia, queres pousar esse telemóvel? Quantas vezes já te avisei que às refeiç…»

«Está bem, mãe, desculpa.»

Esta última palavra, dita assim, como um assentimento inesperado, denunciava uma brecha por onde a Srª Isabel não resistiu a avançar. Após uma dentada na empadinha de espargos, arriscou: «E então, o quê que diz esse rapaz?...»

«O Pedro?... Disse-me que vamos todos morrer, muito em breve

«O quê?!», a Srª Isabel apressava-se a engolir, «Sofia, esse rap…»

«E emprestou-me um livro cujo título é Morte a Crédito…»

«Sofia, esse rapaz não está nada bem. Não te quero ver mais com ele. Pode até ser perigoso! Nem quero imaginar o que diz esse livro. Aposto que...»

«Mãe, não tens de te preocupar... Não é nada disso... E quanto ao livro, ele disse qualquer coisa sobre ser um livro que relata as diversas reacções de uma sensibilidade exposta a tudo o que lhe é mais agreste. Ele agora fala assim, de sensibilidade e em síntese. Dantes estava sempre a saltar de um tema para o outro. Eu chegava a casa e não me lembrava de um único tema que tivéssemos abordado. Falávamos de mil coisas, era de loucos! Mas de certa forma também divertido e interessante... Agora ele parece que anda ali à procura da expressão ideal daquilo que quer dizer, e depois, quando acha que a encontrou, cala-se. Por vezes não diz rigorosamente mais nada o caminho todo. É deprimente!»

(continua)

 

pmramires

despesadiaria às 18:19
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