Segunda-feira, 26 de Maio de 2014

 

Se andasse de autocarro como noutros tempos, teria uma história destas por cada carreira atrasada.

 

A paragem de autocarro, nos subúrbios onde a ruralidade já espreita sem pudor, está cheia de miúdos da escola, mochilas excitadas com a chegada do fim-de-semana. O banco corrido de madeira riscada é guardado do sol por uma infraestrutura de plástico, com um teto em abóbada, roto pela intempérie do Inverno que já passou. Sento-me num extremo do banco e encosto a cabeça ao plástico grafitado onde se afixam alguns avisos da rodoviária. A carreira 33 para o lugarejo onde Judas perdeu as botas vai passar a ter apenas dois horários: um para as velhas virem à vila comprar chita e outro para voltarem, de braços cheios de tecidos e tralha dos chineses. Esta e outras mensagens são letras largadas ao desbarato. Aquelas velhas enlutadas, que nas suas casas caiadas têm quintais de celgas e erva príncipe, enchem as estantes de loiça em vez de livros. Os putos à beira da paragem não querem saber dos avós, a menos que seja Dezembro e uma mão enrugada lhes empurre uma nota para o bolso. Ali, alheios ao que se passa fora da redoma individualista em que a adolescência os aprisiona, mostram as gargantas potentes de histerismo e os telemóveis de última geração, a sinfonia caótica das gargalhadas com os últimos êxitos da eletrónica mais medíocre: batuques, baixos mais que baixos, os nervos na ponta do botão do play. Não há onomatopeia que descreva tamanho chinfrim.

Na outra ponta do banco está uma rapariguita, com os livros da escola no colo e uma mochilita de pele sintética aberta ao lado. O tom castanho da mochila é mais claro que o tom da pele da miúda. As pernas que lhe saem do vestidinho de flores cor-de-rosa são longas, finas e escuras como chocolate de culinária. São perfeitas, sem cicatrizes ou hematomas que perturbem a imensidão do negro, e parecem ter a textura suave da mousse na qual costumo usar o chocolate que lhes empresta a cor. Reparo que se mexem, um movimento periódico e nervoso que me obriga a investigar o que mais há na pretinha: uns braços delgados, uma cara redonda tapada por uma mão que segura a cana do nariz com dois dedos, gesto de tristeza mal disfarçada. O cabelo também é negro, mas é carvão, tão crespo e seco que não forma cachos encaracolados. Em vez disso, mima o aspeto de uma nuvem de fumo carregado (carvão que queima!), selvagem, não se deixa domar pelos elásticos que o querem subjugar, espeta-se e rodeia a cabeça da pretinha, qual halo de divindade africana. Fosse este cabelo escorrido, como as revistas ensinam todos os cabelos a ser, e tapar-se-ia a face da miúda, ocultando os olhos vermelhos, cheios de água.

Um facto curioso: a composição química das lágrimas é alterada pela razão que as inventa. Lágrimas de felicidade são diferentes das de tristeza, ou das de dor, ou das de raiva. Porque chora a pretinha, enquanto os seus pares gritam obscenidades, numa ode à brejeirice do ensino médio, isso não sei dizer. Os meus olhos prendem-se por largos minutos no choro furtivo, queria que fossem espectrómetros capazes de desvendar com que mistérios a gotas salgadas desenveredam o seu caminho, até caírem no abismo da maxila ou serem limpas pelas costas da mão. A miúda devolve-me o olhar, eu não consigo responder à súplica velada porque tenho sentimentos cobardes. Se tivesse na mala lenços de papel, oferecer-lhe-ia um. Ela não os tem; da mala que se abre a seu lado espreita uma carteira vermelha e um telemóvel mais barato do que aquele que oferece ao momento a banda sonora despropositada. Vejo uma corrente com chaves e um estojo com dois ursinhos gordos abraçados, e entretenho-me assim nos minutos elásticos que antecedem a chegada da carreira. Olho para a rapariga, para a sua mala, para o horizonte carregado. Depois, fixo as minhas mãos pálidas, manchadas pela rede sanguínea que as alimenta, fios arroxeados em atividade, incapazes de me fazer levantar e dizer à pretinha que tudo vai ficar bem. Nas mãos dela, os capilares não se vêm, nas minhas, pulsam num excesso de vida que daria de bom grado a quem mo pedisse. O autocarro chega sem que eu dirija palavra à miúda. Espero que ela saiba que tudo vai ficar bem, seja pela boa vontade do Universo ou pelo alívio de uma corda pendurada.

 

S. White

despesadiaria às 08:23
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