Domingo, 1 de Junho de 2014

 

(conto às prestações)

3. 

 

 A Srª Isabel olhou Sofia com desconfiança.

«Como não é nada disso? Não me vais dizer que…»

«Sabes, lembro-me que o papá uma vez comprou um livro do mesmo autor, mas disse-me que eu só podia lê-lo daí a uns an…»

«O teu pai é um irresponsável, Sofia. Sempre foi. Tu sabes. Não passa de um adolescente. Talvez ainda seja mais perturbado do que esse rap…»

«Mãe, estava apenas a tentar dizer que o mais provável é o livro não ter nada a ver com a conv…»

«O teu pai, claro… De algum modo, tinha de estar relacionado com isto...»

«Mãe, por favor.» Sofia levantou-se, abriu o frigorífico, fechou-o, olhou em volta, abriu e fechou duas ou três portas do armário embutido, e permaneceu, hesitante, no meio da cozinha. «Por acaso não há nenhum refrigerante por aí escondido?»

«Menina, podes voltar a sentar-te, descansada. Tudo o que temos está na mesa. Deixei de comprar essas porcarias cá para casa.»

«Ah! É verdade, ainda não te contei por quem passei hoje. Tenta adivinhar...»

«Eu sei lá! O que eu quero é que tu me expliques as razões que levam o teu amiguinho a dizer que vamos…»

«A Sara! Mal me cumprimentou, depois destes anos todos… Parecia até incomodada por me encontrar... Tinha companhia, se calhar foi por isso. Agora usa um daqueles óculos de massa em voga. Ridícula... Aposto que nem têm graduação. Ela nunca viu mal!...»

«Sofia, deixa a rapariga em paz. Há anos que não falas com ela…»

«Oh, cala-te, mãe. Eu sei muito bem no que ela se tornou desde que…»

«Será que me podes voltar a falar desse rapaz?! Já não basta andares por aí de noite, sabe Deus por onde e a fazer o quê, ainda o tens de fazer com um jovem cheio de flutuações de humor e… Sofia, come devagar!»

«Mãe, tu não percebeste absolutamente nad…»

«Da última vez chegaste a casa a dizer que de certeza que ele era bipolar, lembro-me perfeitamente... E agora, a primeira coisa que me dizes é que ele anunciou que vamos todos morrer, muito em breve... Não penso que haja muita coisa par…»

«Talvez se me deixares explicar…»

«O quê que há para explicar?! Esse rapaz está doente. É só isso. E pode ser perigoso andares por aí com ele a…»

«Mãe, ele não disse nada que tu já não soubesses!... O tempo passa muito rapidamente, logo a vida também. Para já, é tudo o consegui dizer...»

«Ah! Agora vais tentar convencer-me que essa é a grande novidade que ele nos deu, que um dia vamos todos morrer…»

«Eu não disse que era uma novidade. E, se queres saber, a forma como o dizes é precisamente o problema. Ou parte dele.»

«O que queres dizer com isso?»

«Talvez me tenha escapado alguma coisa, mas ele começou por dizer que, num primeiro momento, não compreendia, e, num segundo momento, lhe repugnava, a forma cobarde ou meramente idiota como as pessoas vivem a morte.» Sofia parecia recapitular, como se Pedro lhe tivesse dado uma aula e ela mesma ainda não tivesse assimilado bem a matéria. «Por um lado», continuou, «as pessoas sabem que um dia, como disseste, todos vamos morrer, e então usam esse belo saber para porem a morte completamente de lado. Esta atitude era, para ele, estúpida e totalmente incompreensível, até que um dia descobriu que estas pessoas sabem, mas não sentem, que vamos morrer.» Aqui Sofia fitou por momentos o relógio, absorta. Depois acrescentou: «Como uma criança de dez anos o sabe, no fundo.»  

A Srª Isabel parara de comer e mantinha-se quieta e em silêncio, aparentemente incrédula com toda aquela conversa.

«Por outro lado, temos as pessoas que verdadeiramente sentem que, muito em breve, tudo acabará. Não são muitas, segundo ele. Estas pessoas sentem que não apenas elas, como os seus pais e filhos e netos e bisnetos, a sua casa, a sua cidade, tudo o que, mesmo que remotamente, lhes diga alguma coisa, tudo isso muito em breve irá desaparecer e ser esquecido.» Sofia titubeou novamente, como se começasse ela mesma a sentir. «O problema dele com estas pessoas, se compreendi bem, é que não há praticamente uma única delas que saiba ou tenha sabido viver esse sentimento de uma forma honesta, com franqueza e seriedade. Acabam sempre, mais cedo ou mais tarde, de uma maneira ou de outra, por corrompê-lo, e isso repugna-lhe. A maioria, disse-me ele, procura abrigo numa Igreja ao acaso, na qual profundamente não acredita. Outros engendram filosofias redentoras e, com tempo, fundariam a sua própria Igreja. E por fim», terminou quase sem fôlego, «há os que se dedicam à arte parecendo acreditar que através da sua obra serão lembrados, quando tudo, mas tudo, desaparecerá e será esquecido.»

«Meu Deus, que conversa a dele!... Só de pensar que um dia te disse que ainda haverias de casar com esse jovem…»

 

(continua)

 

pmramires

despesadiaria às 16:51
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