Segunda-feira, 2 de Junho de 2014

 

Os nomes dos personagens desta história foram mudados para preservar a identidade dos mesmos.

 

A Catarina é uma mulher prática. Um dia contou-me que perdera a virgindade para uma escova de dentes. Foi assim, entre duas passas de cigarro, que mostrou a mão que lhe vence a vida. Disse-o em resposta à terceira tipa que compunha a mesa, a que falava sobre os seus orgasmos com despudor, mas sem a eloquência para lhes fazer justiça. Ficava ali, a mexer o café com a colher até à náusea, repetia como era bom o sexo, quiçá a tentar convencer-se a si mesma da opinião que a fazia mais mulher. Já a Catarina, essa fizera questão de se foder a si própria com o cabo de uma escova de dentes porque se a sua primeira vez prometia sangue e dor, então preferia ser ela a desflorar-se, agachada no chão frio da casa-de-banho. Explicou isto na displicência de um encolher de ombros e eu não pude evitar perguntar-lhe se sabia que uma pila não era igual ao plástico colorido de uma escova de dentes. Ela riu-se e acendeu outro cigarro.

A história de amor entre uma rapariga e a sua escova de dentes de dureza média reduz-se a um caso de uma noite, algures na busca do controlo sobre si mesma. A Catarina não deixa que ninguém a conduza, mesmo que não saiba para onde deve ir. Lembro o dia em que nos encontrámos nas escadas de cimento que davam para o pavilhão gimnodesportivo da nossa escola secundária. Em vez de um produto de higiene oral feito dildo improvisado, a Catarina empunhava um teste de gravidez com duas riscas cor-de-rosa. Não quis que eu fosse com ela ao hospital ou que lhe segurasse no cabelo enquanto vomitava os efeitos secundários dos medicamentos que lá lhe deram. Pariu sozinha um feto desmembrado que ainda hoje recorda, mas fê-lo com a mesma resolução que a levara a espetar o cabo de uma escova de dentes dentro de si mesma. Uma pila pode ser o que tu quiseres, respondeu-me.

Após o desmanche, partilhámos a cama algumas vezes. Eu adormecia-a com promessas e festas no cabelo, depois de ouvir histórias sobre a mãe que estava no manicómio e o pai que estava longe. Impressionou-me sempre o relato metódico e objetivo destes e de outros episódios, como se a Catarina emprestasse a sua realidade a outra pessoa. Nas madrugadas em que o efeito do Inderal tardava, ficávamos aninhadas uma na outra. Ela falava, eu ouvia aquilo que soava a uma reportagem sobre um estranho cuja vida é uma pedrinha solta no chão, pontapeada ao acaso. Mas se eu sofria com os choques da pedra, perdendo um pouco de mim em cada lasca que se soltava na erosão brusca, ela respirava fundo e brincava com os meus caracóis.

A Catarina consegue amestrar a sua existência porque a tem cheia: essa é a única prenda que a vida lhe deu, o prémio de consolação pelos dias de inocência que lhe tirou. A dádiva passa-lhe despercebida e eu já perdi a conta aos cafés que paguei para a tentar explicar. Qualquer coisa é melhor que o vazio, Catarina. O vazio é a suma confusão, a amálgama desordenada de partículas e anti-partículas que se juntam no nada para formar coisa nenhuma, sem equação que descreva o que está a acontecer ou preveja alguma hipótese. As aulas de física nuclear ensinaram-me isto, viver ensinou-me o resto. No vazio, o tumulto é tal que a alma é assoberbada. A anedonia vai-se aproximando devagarinho, os seus passos a ressoarem no corredor, e este eco da desesperança faz vibrar todas as unidades fundamentais do ser numa dor tão estranha quanto intensa. Tento explicar à Catarina que existo como a concha vazia que a preia-mar abandona na areia. Sou a matéria, sou a anti-matéria, e não sei o que sou. Para mim, uma pila não chega a ser sequer uma pila, quanto mais uma escova de dentes.

 

S. White

despesadiaria às 08:24
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