Quarta-feira, 4 de Junho de 2014

 

Stalker

 

1995, Maio, Coimbra
Primeiro concerto em Portugal. Umas horas depois o Artista está num quiosque de cerveja, e o Jovem, do outro lado do balcão acena-lhe discretamente com a cabeça. Ganda som, man, ter-lhe-ia dito em inglês, não fosse a distância e o barulho. O Artista acenou do seu lado com um brinde discreto no ar, satisfeito consigo, com o Jovem, com a banda, com o resultado espectacular do primeiro disco.

1997, Abril, Aula Magna

Segundo concerto em Portugal, já superstars, sala cheia, público dedicado. O Artista recebe do promotor a informação de que é impossível voltar uma quinta vez ao palco. Ok, responde, vamos para o Captain Kirk!, grita para a população. O Artista conhece o Captain Kirk no Bairro Alto? O Jovem atravessa a cidade, corre para a Rua da Barroca (do Diário de Notícias?) e ouve pela primeira vez o que sempre acreditou ser uma piada de uma canção: só para clientes habituais.

1998, Junho, Passeio Marítimo de Algés

A banda do Artista regressa, como já fazia a cada seis meses. Desta vez, também o Jovem tem um concerto, num palco secundário lá para a meia-noite, do outro lado do recinto. Junto às grades do palco grande, o baterista do Jovem chega à fala com o Artista e convida-o para assistir ao concerto no palco pequeno. Artista acede. Durante o concerto, o guitarrista bulha ferozmente com o técnico de som, como sempre fazem os guitarristas (sobe mais a guitarra!), só que, desta vez, com os punhos. Até aí havia, como habitualmente, mais gente no palco do que na audiência (tivessem ouvido Beatles mais cedo e teriam mais respeito pela forma canção, mas àquele tempo não tinham nenhum). No fim, sobrava apenas no "público" um adolescente, concentradíssimo, quase entusiasmado. Quando teve oportunidade perguntou se alguém podia sair e emprestar-lhe a guitarra. Depois de devidamente mandado à merda, o Jovem e os amigos sairam também. Do Artista, ninguém se lembrou.

2003, Julho, Tavira

O Artista agora faz filmes e a estreia em Portugal da primeira longa-metragem é em Tavira, com presença do realizador. O já não tão Jovem está de férias, não tem planos e vai de carro até lá. À entrada do tabuleiro da ponte 25 de ABril, duas raparigas seguram um cartaz que diz Algarve. Nem abranda, mas, até Setúbal, pensa em realidades paralelas, na sua falta de sentido de oportunidade, e total ausência de killer instinct. Já instalado no Hotel, dirige-se para o recinto de projecção demasiado cedo e senta-se ao balcão do bar. Não há barman, mas ao seu lado está sentado o Artista. O já não tão Jovem, convicto que a sua timidez é coisa de outros tempos, ensaia mentalmente o que dizer e pensa essencialmente agradecer por tudo. Se foi músico a ele o deveu. Mas não soube como fazê-lo, e algum tempo depois, o Artista levanta-se e diz as únicas palavras entre ambos: see you, man.

2014, Fevereiro, Alcântara

O Homem, ex-Jovem, ex-não-tão-Jovem, sai do autocarro na paragem de sua casa e vê, na esplanada do seu café, a sorrir para o tablet que tinha nos joelhos, o Artista. Na rua, no café, no Calvário, o Artista. Há anos que não sabe se o Artista ainda o é, ou o que está a fazer, e no entanto, ei-lo. Sozinho, com bom aspecto, a beber uma imperial, com sacos da FNAC na cadeira ao lado. Agora já não é a timidez mas o desconforto de lhe descrever tudo isto que impede o Homem de lhe falar. Não há forma de o dizer no bom sentido, o tempo passou, o timing também e não quer que a recordação da primeira vez que se falassem fosse a dos olhos nervosos do Artista à procura de uma arma debaixo do casaco do maluco que tem à frente.

 

Gouveia

despesadiaria às 14:09
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014