Sábado, 7 de Junho de 2014

 

A estrada de Ercolano dá voltas ao flanco do monte. Para se ir à pata até o vilarejo, é preciso que o dia esteja seco como um figo pelo lado de fora. Hoje não (como tudo é simples!). Na rua somos envolvidos por um cobertor molhado. O nevoeiro é uma espécie de geleia a flutuar. Uma gosma à milésima potência! Melhor voltarmos à taberna onde a especialidade é o pastel de peido e o whiskey de milho. Antes vou ali ao canto. Desço a berguilha. O mijo espuma na lama. Agito tanto o caralho que parece dez ao invés de um. Deixo para trás meia dúzia de barracões e edifícios tronchos. É preciso beber todos os dias para tirar o empeno. Nos degraus, à porta da bodega, um puto arrebatado por um livro em frangalhos. Os olhos embranquiçados como os de um peixe cego. Encolheu-se tanto quanto pôde contra a madeira lascada da porta para me dar caminho. Lá para dentro o cheiro de mofo está acavalado a um coeficiente adicional de fritura. O dono do armazém, como um professor atrás da mesa, emboscado, a olhar para os alunos à sua frente sem saber o que dizer. Pendurados na parede, os atributos de seu passatempo favorito, galhadas de alces, cabeças de zebras, corujas. Num desarranjo mais ou menos plausível. Ao lado da porta, uma pata oca de elefante (para os guarda-chuvas, ele explica). Imagino a morte da bicharada. Uma morte caracoleante, enfeitada como uma puta, fantástica, absurda e rápida. À direita, um velho com um pequeno rádio a expelir uma vibração submusical. Metia os dedos no nariz, três ao mesmo tempo, totalmente absorto, a deixar esfriar o bife sobre a tábua da mesa. O contentamento perpétuo é a mesma coisa que um boi. Aos poucos, enquanto se anda, pode-se sentir a água subir dos frisos do soalho. Em caixotes colocados no peitoril das janelas, o capim cresce duro como barba. Sou mais ou menos incomodado pela persistente mistura de dialetos que se ouve no barraco. O cavaquear de vozes é um passar por cima contestado pelo passar por cima mais distante em sentido contrário. Sento junto ao balcão. Ali ao lado, de olheiras pisadas pelo cansaço, um gajo a passar o dedo pela tampa do relógio. Apanha nos ponteiros uma gota com o dedo, uma lágrima cujo teor em sal é de certeza muito forte. Talvez a contar um a um os minutos que o separam da reforma. A disfarçar um choro sísmico, expressão de mau actor. Uma gaja alta, borralheira, enfarpelada numa farda de sopeira, põe à minha frente um copo de cerveja. No baque deitou quase toda a espuma na cova do cinzeiro. Não importa. Toda a gente sabe que é a má vontade que nos pastoreia. E no fundo é muito pouco o que um gajo tem de pessoal. Ninguém se distingue tanto da má vontade de que se nutre. Só resta dizê-lo e, se não o sentimos, senti-lo. O gajo do tamborete ao lado bate-me no ombro. Interrompi o que estava a fingir que fazia para olhá-lo fixamente. É um gajo grande, verdade. Mas duas vezes mais mal-alimentado que eu. Quer vender-me o relógio. Tira-o do pulso. Mostra. Eu estalava a língua, fazia ô, ô, assim como se ele fosse um cavalo que eu tentasse frear. Ele volta à carga. Oferece agora um baralho lolicon, cheio de crianças nuas. É a minha vez de rir. Pelo menos ele não doura a pílula. Insiste. Não adianta. Sou um cientista, vejo as coisas objectivamente. Não caio nessas esparrelas em modo propaganda. Sopro o que restou da espuma. Lá fora a chuva começou. O mundo é uma ruína enorme, cheia de ecos. Horrorosa de se olhar e de se ouvir.

 

Peor

despesadiaria às 12:59
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