Segunda-feira, 9 de Junho de 2014

 

(conto às prestações)

 

4.

 

«Meu Deus, que conversa a dele!... Só de pensar que um dia te disse que ainda haverias de casar com esse jovem…»

«Mãe, por favor… Ele deve estar a… Oh, vamos mudar de assunto.»

«Sofia, eu não te digo isto mais nenhuma vez: estás proibida, ouviste bem, proibida de sair sozinha com ele. Muito menos de noite…»

«Está bem, mãe, está bem. A partir de hoje, quando sair com o Pedro aviso com antecedência e escrevo-te uma carta com todos os pormenores de forma a poderes fiscalizar cada detalhe do que nós vamos…»

«Brinca, menina, brinca com coisas sérias. Ninguém sabe o que pode acontecer se tu o apanhas num dia mau e ele vê uma oportunidade para…»

«Mãe, por favor, poupa-me! Ele não é nenhum desequilibrado nem fugiu ontem de um manicómio. A morte da avó e ter tido de acompanhá-la durante meses ao tratamentos, isso atormentou-o, sim… Mas daí a ser considerado uma ameaça vai um longo…»

«Para onde terá ele ido, a esta hora?»

«Quem? O Pedro? Para casa, acho eu...»

«A pé?! Com este tempo?!»

«Ai mãe, pára com isso. Deixa-o. Vou já para a sala. Estás a ficar insuportável!»

 

Lá fora a cidade sucumbia ao cerco do Inverno. A luz dos candeeiros dissolvia-se, coada pela bruma, em sujas e flutuantes manchas de cor. Os poucos cafés abertos encontravam-se vazios. A solidão na rua era total.

No topo de um prédio de oito andares, um homem de idade, macilento, procurava consertar a antena parabólica. Fugia do tédio e da angústia que se instala quando nada acontece. Como o vento amainara, escolheu uma posição junto à borda, a que lhe dava mais jeito para executar o trabalho que tinha ido ali fazer. De repente, uma saraivada de gaivotas esvoaçou e foi pousar na sacada mais próxima do velho. Este manteve-se indiferente, inclinou-se para o estojo das chaves de fendas e escolheu a que tinha a ponta adequada ao parafuso que lhe faltava apertar. As gaivotas levantaram voo novamente e rodearam o homem. Parecia que acompanhavam o seu trabalho, expectantes, como se o estivessem a inspeccionar. Quando o terminou, o velho arrumou tudo numa caixa de ferramentas e voltou ao interior do edifício, no seu passo arrastado mas tranquilo.

Ao chegar a casa, Pedro presenciou até ao fim esta cena com alguma ansiedade. Depois entrou no prédio e ultrapassou com um salto os três degraus que separam o hall de entrada da porta do elevador. Saiu no quinto andar e entrou no número três.

Pela escuridão do corredor deduziu que ninguém estava em casa. Dirigiu-se para a sala, atirou a mochila contra o sofá e sentou-se na cadeira giratória, de frente para a mesa congestionada de livros e onde o computador permanecia desligado. Atirou uns livros para o chão, afastou o computador e pendurou as pernas na mesa, à cowboy. Sacou da carteira que trazia no bolso interior do kispo e retirou de lá um charro, insuficientemente amarfanhado para não ser consumido. Acendeu-o, deu uma longa passa e pensou em como tinha sido tão estranho e íntimo e embaraçoso partilhar o que sentia. Depois, consultou o telemóvel e viu que tinha uma mensagem. Não respondeu.

 

(Fim.)
(O título do conto é Muito em breve.)

pmramires

despesadiaria às 14:15
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