Terça-feira, 10 de Junho de 2014

 

A perspetiva popular de um crime passional.

 

A minha mãe mandou-me ir à casa das lãs. A loja é mínima, espremida entre um dos cafés mais antigos da vila - o pioneiro na venda de gelados, algures nos anos 60 - e uma esquina de calçada puída com destino a um bairro que nunca explorei. Fica perto da casa mortuária, de uma fábrica defunta e das ruínas do castelo. Lãs Alegre: é este o nome que se lê nas letras verdes da placa em forma de favo de mel. A porta de entrada é tão minúscula que pede uma vénia a quem por ela quer passar; dentro da loja, sobra-me um palmo para não bater com a cabeça no teto. A divisão é quadrada, o espaço é bem aproveitado. As prateleiras embutidas nas paredes laterais guardam dezenas de meadas de lã, arrumadas com regra e primor. Quando o cliente entra na loja, a onda de cor rebenta com suavidade mediterrânica, começa nos lilases mais frios e termina nos vermelhos ardentes: o colorido de todos os modelos da Burda colecionados pela minha mãe. A dona da loja é uma senhora baixinha que tem a mesma idade há vinte anos. Nas horas de pouco movimento, pressiona o tronco em forma de barril contra o balcão de vidro. Vai lendo as novidades das telenovelas, mergulhada num transe de fofoquice para ajudar a esquecer o barulho dos ponteiros do relógio. Assim que alguém entra na loja, desperta prontamente do universo rosa-ácido com um sorriso e um cumprimento cordial.

Mas hoje, uma sombra abraça o bom dia, menina com que me recebe. Peço à dedicada lojista trezentas gramas de lã azul para uma camisola. O pedido é pousado sobre a balança branca, uma balança analógica, digna de museu, companheira próxima do escaparate onde se exibem os carrinhos de linhas da Ancora. Observo a mulher enquanto tira da gaveta o saco de plástico azul para lá colocar as minhas meadas. Cada gesto é findado com um tremelique. A mesma sombra que cobriu o meu bom dia estende-se para as ações mecânicas da senhora, uma lojista treinada!, e compromete a destreza com que as teclas da caixa registadora se encolhem na cobertura de plástico encardido. Pago a lã. O peso das moedas na mão da mulher é multiplicado por dez à potência do que quer que seja que lhe perturba a alma. Com o troco, recebo um longo suspiro. O vinho estragado espirra de entre as talas do barril inchado: ó menina, desculpe lá, mas sabe o que aconteceu ontem à noite? De cotovelos apoiados no balcão - e com as generosas mamas a taparem metade da revista que ali se abre -, a senhora conta-me que numa rua empedrada por detrás da loja, num beco escuro com séculos de beijos roubados, um homem matara a mulher com uma machada. Foi o Senhor Zé, menina, rachou a cabeça da mulher ao meio! Não faço ideia de quem sejam, assassino ou vítima: todos os velhos se chamam Zé, todas as velhas se chamam Maria. São mil caras para dois nomes vulgares. O cenário pintado é dantesco, com sangue e miudezas a tingirem o chão e a mobília do casebre onde dois septuagenários aqueciam os pés um do outro. O Senhor Zé, que raio havia de lhe passar pela cabeça!

Saio da loja com a minha lã e um par de agulhas que acabei por comprar para substituir abraço que não dei à comerciante desconsolada. Estou no Bairro do Areal: uma ruela estreita, torcida no sopé da colina onde se erguem os Paços do Concelho. Há de tudo neste pequeno bairro, da mais prosaica mercearia a uma agência funerária chamada Alface. Também há um barbeiro, o Pascoal, que encontro encostado à porta do seu estabelecimento-tertúlia. A barriga protuberante quase cumprimenta os espelhos dos carros que passam com um aperto de mão. O bigode farfalhudo está tenso e enriçado sobre a boca opinadora. Hoje o tema que discute com dois amigos, encolhidos na berma suja, não é futebol. Bom-dia, menina, e logo volta a divagar sobre o crime da rua de cima. Paro para ouvir, as versões de barbearia dos crimes devem ser tão boas (ou melhores) que as dos adultérios. Com a bênção do cachecol do clube de hóquei-em-patins, pendurado sobre o espelho que reflete a rua e uma cadeira vazia, o Pascoal conta a história que lhe emprestaram:

 

o Senhor Zé, que só é Senhor pela idade que tem, chega a casa para jantar. O fígado processa a aguardente, mas não é caso grave porque o sistema está bem treinado. Dá de caras com a mulher - raios partam aquela mulher. Como se espera do casal que se atura há uma vida, discutem. Mas a bílis ferve com afinco e o homem está farto da víbora que desposou há umas décadas atrás, na tolice da juventude. Agarra na machada e atira-a. Primeiro, aponta ao peito, e deixa um lanho sangrento no esterno da velha. O coração aflito espreita pela fresta e vê a segunda investida, agora contra a barriga. As tripas da mulher escapam-se-lhe entre os dedos, como pequenas enguias. No fim, o Senhor Zé aponta à cabeça e deixa o aço dividi-la em duas. Há sangue na machada, nas mãos do Senhor Zé, no chão da cozinha, na mesa, no prato de açorda de bacalhau…

 

E sabe quem chamou a polícia, menina? O Pascoal olha para mim, muito sério. Faço um esforço para não me rir dos seus traços castiços. O pobre barbeiro é a caricatura de um jogador de futebol dos anos 80. Remata: diz que foi o próprio Senhor Zé a telefonar para a polícia. Naquele palco inusitado, deixa a frase a pairar com uma solenidade descabida, ao jeito de quem revela os feitos de um mártir. Talvez nunca tenha gasto as madrugadas a ver programas sobre assassinos em série nos canais mais duvidosos que o pacote da televisão por cabo oferece. Já eu, devoro esse lixo televisivo com a mesma avidez com que aqueles três homens olham para mim, expectantes. Anseiam uma opinião fresca que os valide, ou então que eu siga a minha vida, deixando-os inspecionar a traseira que o casaco não esconde. Acabo por encolher os ombros, tamanha é a confusão que afoga o meu discernimento. Os programas da madrugada não me ensinaram a endeusar carrascos. Mas antes de conseguir gaguejar uma desculpa para abandonar os convivas, o coxo da vila passa pelo alcatrão esburacado e acena na nossa direção. Pergunta se estamos a falar do terrível acesso de loucura do Zé, patrocinado pela machada que nem sequer lhe pertencia. Abeira-se de mim em dois tropeções: fui eu que lhe emprestei a machada, diz.

A arma que descreve é da mais fina forja. A lâmina implacável brilhava, sem ferrugem que a maculasse, rachava troncos de zinho com uma destreza de fazer inveja às serras elétricas mais chiques. E que fácil era manejá-la, o cabo polido unia-se à mão como extensão natural do membro. O coxo está inconsolável, sem a querida machada e sem o amigo com quem partilhava couves. Lamenta não ter dado o valor devido aos dois. A machada, tão boa que até rasga cabeças. O amigo, tão bom que aguentou a perfídia daquela rameira durante tantos anos. Quantas lâminas não lhe passaram pelas mãos durante a longa pena que Deus lhe impôs? Os outros homens soltam exclamações, todos se encontram em acordo inédito, de repente ninguém tem clubes. Está na hora de me ir embora. Antes prefiro que me galem o rabo a explicar o esquema retorcido da moral que ali se prega. Logo eu, que tenho na mesa de cabeceira uma bíblia virgem. Os meus argumentos de nada servem aos homens que todos os Domingos vão à missa bater com o punho cerrado no peito. Pobre Senhor Zé, pobre Senhor Zé. No caminho para casa, até as correntes de ar me chagam a paciência com murmúrios condoídos. As palavras fazem eco na minha cabeça, essa ainda intacta. Vá-se lá saber porquê, ninguém se importa com os hemisférios da Maria, separados à machadada.

 

S. White

despesadiaria às 09:10
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