Quinta-feira, 12 de Junho de 2014

 

Uma lista em papel de milhares de números contra um excel de milhares de números, a representação quase binária de um mês de actividade incompreensível; apenas duas colunas intermináveis, inimigas. Reconciliação, chamaram-lhe pessoas que não podem saber do que falam, não sabem da fúria que a precede, nem dos atalhos que tomamos, ou do make-up sex que prevemos com esperança. Reconciliação, chamam-lhe, como se gozassem connosco, ao controlo neurótico de duas colunas infinitas, iguais. Linha 1, papel, check, ctrl+f, excel, check, linha 2, papel, check, ctrl+f, excel, check, linha 3, papel, check, ctrl+f, excel, check,  linha 4, papel, check, ctrl+f, excel, check,  linha 5, papel, check, ctrl+f, a música nos auscultadores não significa nada, passam álbuns inteiros e não os ouço, excel, check. Linha mil, linha dois mil, nem um erro, cresce a ansiedade por um erro, um cêntimo, um erro do caixa, um erro de simpatia, um erro humano que me devolva a humanidade a esta tarde de ctrl+f, e de vistos a caneta vermelha.

 

Invariavelmente o erro surge, reconcilio banco e contabilidade e é impossível não sentir o horror de ter chamado felicidade ao usufruto de um grão na engrenagem em que me enfiaram, a engrenagem que sou.

 

Gouveia

despesadiaria às 12:52
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