Sexta-feira, 13 de Junho de 2014

 

Assim que acordei, estremunhado, não pude deixar de reparar no bojo que se fazia anunciar por debaixo das calças do pijama. Qual madalena de Proust, vi-me amolecer num devaneio que só parou quando me reconheci, todo homenzinho, sentado no banco de trás do Mitsubishi Galant que o meu pai guiava, sobre a 25 de Abril, para levar a família, aos sábados e aos repelões, a ver o Tolan. Eu bem que insistia, olha que é pai, mas o meu pai garantia-me que não, que aquilo não era a barriga de uma baleia que dera à costa. Eram tempos em que acreditava em tudo o que o meu pai me dizia. Hoje sei que passou uma boa parte da vida a mentir-me e, por isso, é provável que também me tenha mentido quando me disse que aquilo não era a barriga de uma baleia que dera à costa. Ainda assim, vivia, sem que o pudesse adivinhar, os meus bons velhos tempos. Aos domingos, íamos de metro até ao Alvalade, aplaudíamos o Manuel Fernandes e o Jordão, depois lá rilhava uma sandes de coirato na rulote do careca e, se estivesse com sorte e o Sporting ganhasse (o que era uma e a mesma coisa), empurrava-a com uma gasosa da Rical. Também gostava das manhãs de domingo. De ir à catequese para me sentar ao lado da Helena e de seguir, depois, com a família, para ver o Tolan. (Certa vez, perguntei à Helena se queria ver o Tolan. Mal me refiz desse encontro, tratei de comunicar formalmente aos meus pares o teor da sua resposta. Para o efeito, lembrei-me de uma palavra que aprendera ao ler o correio sentimental de um dos fascículos da revista Maria, convenientemente sempre à mão, sobre o naperon da mesinha de centro da nossa kitchenette no Miratejo. Preliminares, meus amigos. Muito embora, em bom rigor, para a Helena não tenha havido dúvidas de que se tratara de uma joelhada nos tomates).

 

Ao recordar-me dessa época, poucas coisas me deixem mais saudoso do que os intervalos passados no pátio central da escola preparatória Pintor Columbano. Suburbanos que éramos, ali atravancados entre o bairro dos ciganos do Laranjeiro e a nacional nº 1, lá nos juntávamos nos recreios, para umas futeboladas ou, então, para falar de cinema francês. Passo a explicar: primeiro que tudo, convencíamos o infeliz com mais graveto na turma a comprar a TV Guia todas as semanas (normalmente, o argumento a que mais recorríamos, era um par de chapadas). Professoras saídas do PREC passavam por nós de lágrima na lapela, infladas por um sentimento de trabalho bem feito, por ver assim aquele grupo de cábulas a folhear as páginas de uma revista em busca do próximo Rivette, do último Godard ou do melhor do Truffaut. É verdade que não lhes sabíamos os nomes nessa altura. Mas sabíamos o essencial: se eram franceses e o filme passava na rtp2, mais cedo ou mais tarde, haveria de aparecer um par de mamas.

 

azeite

despesadiaria às 11:38
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