Domingo, 15 de Junho de 2014

 

Isto à primeira vista não se percebe. Mas estou sentado numa dessas cadeiras de rodinhas. Passa um pouco das onze da manhã, e há quase meia hora estou a fingir falar ao telefone. Digo "fingir" porque é uma conversa em que não consigo meter nem prego, nem estopa. O gajo que está a espera de que eu desligue o aparelho, faz passar voluptuosamente, pelos buracos do nariz, o fumo do cigarro. Em cima da mesa, aberto, um Michelin gordíssimo a eviscerar as belezas da Itália; as pontas gastas e empenadas pelo excesso de aproveitamento. Olho para Cápua. Continuo uma conversa para fora da qual a minha atenção pouco a pouco resvalou. Isnello fica a setenta e nove quilómetros de Palermo. Palavras italianas flutuam entre as cadeiras, mortas, de barriga para cima. Atrás do gajo, o sol e os galhos misturam-se numa espécie de siroco que deposita por toda parte uma luz diluída, enfarinhada, que entra pela janela e dá aos contornos um brilho embalsamado, leitoso como aquelas membranas que envolvem um órgão ou lhe formam as paredes. Trata-se do reino sinistro do esbranquiçado. A fumaça sobe pela ponta do cigarro, a se revirar como uma língua recém cortada. Dois passos à direita e a sala metamorfoseia-se em um canteiro de escadas, escoras de madeira; uma porta arrancada das dobradiças está encostada na parede entre uma pirâmide de lascas de tijolos e uma papa de gesso em um balde. A casa, de uma grandiosidade ultrapassada, pertence à sua irmã. Eu a tinha visto na cozinha, a passos largos para a embriaguez. Uma bacia com água sai por uma porta nos braços de uma miúda. O gajo piscou-lhe. Ela devolveu-lhe a piscadela e depois mandou-lhe um beijo, pondo a boca em forma de cu de galinha. Vai dar banho à boneca que abre e fecha os olhos. Ele sopra um anel de fumaça na direcção da minúscula messalina, e aquela oval vazada, a flutuar, parece impregnada de uma mensagem erótica. Foi sempre assim. Quando se acham grandes e querem enviar mensagens ao mundo, dão impressão de ter rebentado o prato, mas na realidade não quebraram nada. Trincam uma banana, agarrados só por um braço à barra do trapézio. Tudo a fingir. Há uma rede lá embaixo, pode-se cair à vontade. Viro a cabeça. Olho para a miúda e para a persistência com que empurra o cabelo para trás das orelhas. Depois para o gajo, cuja atenção estava agora voltada para o acto de enfiar o dedo no nariz e o examinar com sonhadora satisfação antes de limpá-lo na beirada do banco.

 

Peor

despesadiaria às 12:11
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