Terça-feira, 17 de Junho de 2014

 

Conto às prestações. 

 

(outro, sim. talvez valha a pena um esclarecimento: o conto é partilhado ao ritmo a que o autor o escreve, daí ser às prestações. por vezes sobram-lhe uns trocos, ao autor, mas não o suficiente para pagar dupla prestação - muito menos o total da despesa.)

 

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1.

 

Há alguns anos atrás, a meio da tarde, numa praia algures no norte litoral do país, era possível avistar um jovem rosado, mais espadaúdo que elegante, vestindo uns calções de praia azul-turquesa. Estava sentado numa intergeracional e desdobrável cadeira de lona, enterrada na areia a dois passos de uma geométrica barraca de praia. Na mão direita, 33cl de cerveja encapsulados numa lata cilíndrica de metal. Na esquerda, uma banda desenhada em paperback manchado e de pontas corroídas. Ao seu lado, duas jovens mediterrânicas, quais garças de perna longa e pescoço fino, derretiam oleosas há largas horas. Aos seus pés, uma bola de plástico, insuflável e multicolor, aguardava melhor uso. Ao fundo o mar, desdobrando-se preguiçoso na areia fina e aderente… Era possível ao leitor avistar esse jovem de boné vermelho com aba voltada para trás e óculos à aviador fixos na oblíqua cana do nariz – mas o mais provável seria enganar-se redondamente se tentasse adivinhar as águas por onde o seu pensamento navegava.

Imagine um jardim com piscina e pezinhos trôpegos a chapinhar nela. Imagine uma bola de celulóide seguindo trajectórias surpreendentemente rectilíneas para cá e para lá numa mesa de pingue-pongue cuja rede esburacada já tinha posto em causa amizades e gerado rocambolescas teorias. Imagine cadeirões de couro e adolescentes frenéticos neles sentados enquanto a televisão exibe mais uma espectacular etapa de montanha do Tour. Imagine blusas de alças caindo lânguidas sobre miúdas que se passeiam airosas pelos labirintos de um parque de jogos. Imagine uma mesa de nogueira à sombra de um olmeiro e tortas de toda a espécie e sumos frescos sempre nela renovados. Imagine o odor da relva viçosa e cíclicos jogos de futebol entre luxuriantes rododendros. Imagine um ambiente plácido, uma atmosfera jovial e quadros impressionistas... E por fim imagine que o jovem sentado na cadeira de lona tudo isso imaginava e muito mais!... E a leveza e prazeres de outros tempos, certamente adocicados pelo filtro nostálgico da memória, tornavam mais densa a quietude sufocante que o envolvia, o ritual pastoso de inactividade em que se via preso. A simples visão das pregas laterais do pano da barraca de praia, abatidas como bochechas flácidas num rosto envelhecido, não podia deixar de fazê-lo pensar nos dias em que, enfunadas pelo vento, se agitavam alegres e ruidosas.

O jovem frequentava o terceiro ano da faculdade e tinha a estranha sensação de alguém que se vê cair numa armadilha sem ter saído do lugar onde há muito estava. No entanto, caso alguém pudesse auscultar aquilo que ele sentia, não poderia deixar de concluir que, fosse como fosse que tivesse ido ali parar, avolumava-se nele uma fúria que o levaria a sair. Não porque a ingenuidade que nutria o seu pensamento lhe alimentasse ilusões de reviver algo que sabia estar definitivamente para trás; mas pela indiscutível necessidade espiritual de evitar um colapso nervoso sob aquela teia asfixiante e viscosa. 

«Chega», pensava, «tenho de acabar com este namoro ainda hoje.»

 

(continua)

 

pmramires

despesadiaria às 08:15
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