Quarta-feira, 18 de Junho de 2014

 

Wake of shame

 

O clarão da madrugada escorre pelas frestas ovaladas das gelosias, deixa o rasto luminescente rasgar o monte de roupas esquecido numa cadeira giratória e morre na lisura da estante de pinho - dois metros de design sueco sem contos fantásticos ou livros de poesia. Em cada prateleira sobra a negrura ignorante. Na do topo, inacessível mesmo ao meu braço mais comprido, um colosso sobre as técnicas da ciência com equações diferenciais suga as correntes frescas da divisão para a sua lombada acastanhada; nos outros espaços vazios, pequenos corpos negros devoram o meu despertar arrastado.

Não sei onde estou. O fantasma borracheiro esqueceu uma esponja na minha boca. O gosto do vinho atrasado faz da glote um badalo inquieto, hesitante quanto ao futuro da pouca comida que ainda jaz no estômago. Eis a expressão máxima do glamour do dia seguinte: a cabeça enfiada nas fauces de um sanitário encardido, as mechas de cabelo que a violência dos arranques vesiculares solta do apanhado e que se colam ao suor cansado, a escorrer das têmporas. Tenho um Chuck Close preso no espírito, cada momento imaginado é um fotograma que se sucede a outro. Tudo seria mais simples se eu soubesse onde fica a casa de banho, se o meu ponto remoto não fosse a parede branca frente à cama na qual estou deitada. É nela que concentro o olhar, tentando adivinhar a cena em redor com os sentidos que sobram. Cada um vai acordando lentamente, à procura da sua consciência própria.

Sei que o lençol que me tapa as pernas também é branco. Estou há tanto tempo quieta sob o toque do algodão que do tronco para baixo sinto apenas uma dormência pastosa, como se pele e tecido se fundissem num só revestimento híbrido, a tapar-me as talas disfarçadas de ossos. Espreguiço-me, estalo os ombros e o pescoço, estendo os braços para cima e para atrás até os punhos baterem na esquina da cabeceira da cama, onde ficam presos na duração de um suspiro atormentado. De tensão articular aliviada, esqueço a parede. Fecho os olhos com força e deixo os pontinhos esbranquiçados piscar na escuridão das pálpebras. Sinto os movimentos oscilatórios do esterno a cada golfada de ar. Apalpo as minhas costelas com as pontas dos dedos: uma, duas, três, estudo-lhes os intervalos com o toque, brinco como se tocasse naquele piano ósseo o requiem da minha inocência, e a música afunda-se no odor que se eleva das garrafas de vinho espalhadas pelo quarto.

O cigarro da sorte ficou por fumar. Vejo-o, solitário, na carcaça do maço de Marlboro que repousa na mesa de cabeceira. Não encontro o isqueiro, deve ter-se perdido algures no outro lado deste leito maldito. Nada enxergo à minha esquerda além da muralha muscular erguida a um palmo da minha almofada. As sombras da alvorada encharcam-na de lama. Ontem à noite, os sinais escuros da pele envelhecida podiam ter desenhado as mais belas e intrigantes constelações. Um horóscopo de promessas, as previsões de sagitário no amor. Agora, o que mais quero é deitar de costas o muro da minha vergonha e trepar pelos destroços; prender a cintura daquele homem com as minhas pernas nuas, agarrar na almofada manchada de máscara preta e usá-la para lhe tirar o ar. Com gosto exorcizaria a vida daquele corpanzil danado, seria até um preço pouco justo pela minha nova cicatriz de arrependimento, a ser descoberta após engolir dois cafés cheios, sem açúcar.

Estas ideações homicidas abatem o último bastião da quietação doentia que me prende a este sítio. Com o desejo de sangue a alimentar a carne, consigo finalmente tirar as costas do colchão e ficar sentada na cama, sentindo o meu próprio sangue a pulsar violentamente na nuca de caracóis enriçados. Recordo um pintassilgo muito amarelo que fiz explodir nas mãos quando era pequenina. Receio que o mesmo me aconteça se não sair daqui, que o ar quente deste quarto me aperte com entusiasmo doentio até os olhos saltarem das órbitas e as suturas cranianas se desfazerem em linhas soltas. Vejo os meus miolos grafitar a parede branca na qual me concentrava há uns minutos, e de repente imagino a parede ensanguentada, a estante nórdica, os lençóis sujos, tudo parte de um happening glorioso que culminaria no meu regresso ao pó das estrelas. Levanto-me, a náusea mental é agora mais intensa que a física. No seu abraço asfixiante, procuro as minhas roupas. Visto-me. Saio do quarto para o corredor escurecido e encontro uma porta de madeira robusta e trinco pesado à minha esquerda. Saio do apartamento, saio do prédio, saio do bairro suburbano. Só não saio de mim porque não posso.

Ora, muito bom dia a todos.

 

S. White

despesadiaria às 08:00
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