Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

 

reencontrar um ex-amigo é, a todos os títulos, sucesso a evitar. se digno de mero registo en pasant em caso do acaso nos cruzar numa calçada daquelas de olá e adeus, até um dia destes, temos que combinar um café, estou cheio de pressa, ia para ali, já em situações cuja estratégia de fuga se nos afigura inalcançável, o descritivo requer-se mais detalhado. conta-se em poucas linhas o lamentado e sucedido. espero contar com a sua empatia, caro leitor. se for esse o caso, faça o favor de me acompanhar. o cenário era uma fila de supermercado, filial dos hipermercados azevedo. local por si só a evitar, sem demais razões a terem que vir à baila, mas convirá o meu amigo leitor que há momentos da vida em que um gajo fraqueja, e os bens essenciais são assim chamados por alguma razão. sem muitos considerandos sobre a escolha da fila de caixa certa - que não existe e, se existir, nunca será a escolhida - sem muitos considerandos, dizia, este que vos tecla encaminha-se à caixa cheio de vontade de proceder ao pagamento dos consumíveis recém desprateleirados e ao posterior usofruto dos mesmos após curta (espera-se) viagem de regresso a casa. aqui chegados, sou alertado para usar a expressão, «no conforto do lar». consideremos isso despachado. à minha frente, só uma gorda. deve ser rápido. 'tá bem, 'tá - ri-se o tio murphy. pousados os bens até então carregados em sólido regaço, surge à retaguarda o referido ex. então, tudo bem, há quanto tempo, estás por cá, que tens feito. cumpridas as desnecessárias formalidades sociais, lembro-me que não me lembro sequer do nome. não vai ser preciso, penso. 'tá bem, 'tá - outra vez ele. a gorda que aquilo estava em promoção e agora está a passar o preço errado, a caixista que o colega já aí vem. o vitor (?) que temos que combinar qualquer coisa, que estou só de passagem mas venho viver para cá (foda-se, até eu já percebi onde é que isto vai dar) que mudo-me no fim do ano, estive em angola e acaba o contrato em dezembro, que os angolanos agora é só dinheiro, mas são pretos e não percebem nada de engenharia, querem construir estradas e eu, olha, aqui era desempregado, lá no meio dos pretos sô enginhêro. e eu penso, calo-me ou chamo-lhe já porco racista, a gorda que nunca mais, eu pago-lhe a diferença da promoção se for preciso. olha, dá-me o teu número que eu dou-te um toque, dispara o samuel (?). olha, que caralho. eh pá, deixei o telemóvel no carro. a mão esquerda denuncia-me. afinal está aqui. estou a ficar sem bateria (ridículo, eu sei, amigo leitor). grava aí o meu, recarrega o luis (?). novium, dois cinqueseis, doijoito três sete. dá aí um toque para eu ficar com o teu. temos que falar. está tudo bem contigo? tudo a andar, tento eu fugir. eh pá, atropela o fábio (?), separei-me da sofia (who?), relações à distância, sabes coméquié. (não sei, não, amiga leitora). e lá em angola, com tanta carne boa, sabes coméquié. (também não sei, juro). temos mesmo que ir jantar. olha, eu ligo-te quando vier para cá, tenho saudades tuas, pá. vamos beber uns copos e falar da vida, que isto anda assim meio coiso, sabes coméquié (esta por acaso sei). desde que me separei da sofia a minha vida anda um farrapo. fui-me a baixo, não me renovaram o contrato, por isso é que vou voltar. eh pá, estou na merda, solta o tózé (?), sem se importar com os decibéis. a caixista devolve-me o cerelac e o tinto ao mesmo tempo que eu esbugalho o olho em direcção ao eduardo (era isso, eduardo!). como quem não está satisfeito com o dano causado, ele insiste: eh pá, estou na merda. e eu, que sempre que posso cito os rio grande, peguei no saco das compras e disse: «olha, sou capaz de ir aí pelo natal.»

 

um tal de joão gaspar

despesadiaria às 01:27
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