Sexta-feira, 20 de Junho de 2014

 

#1 (de 4) :: duas da manhã ::

 

O café Roda Viva abria todas as noites do ano exactamente às 3h30 da manhã, com o inteligente propósito de servir todos aqueles que em mais de dez anos ainda não se habituaram a ver os bares que frequentam fechar à hora legal. O Roda não tem decoração retro, nem espelhos, nem flyers no balcão, e das colunas ouve-se a Rádio Renascença todas as noites. As mesas quadradas de contraplacado, com uma tira de alumínio a toda a volta e as cadeiras de sala de aula, as montras de pastelaria recheadas de salgados acabados de fritar e as frigideiras em lume brandíssimo com bifanas e outros cozinhados em molho abundante, são de um espaço que não pertence a estas horas. O Roda Viva não está aberto de noite, antes abre especialmente cedo. E fica aberto até perto das cinco da tarde, hora a que terminam os últimos almoços e em que são finalmente lavadas as últimas frigideiras de ferro, o chão é limpo de beatas, as vitrines livres de gordura, a casa de banho limpa pela quarta vez.

 

Às duas da manhã, Carlos, que tinha largado o trabalho às 14.30, assim que fechava a cozinha, abria a porta do seu café sozinho, levantava as cadeiras, começava a encher de óleo as frigideiras e a tirar as enormes caixas de pastéis de bacalhau e croquetes do congelador. Cortava em bocados o polvo que tinha cozido à hora de almoço, procurava habilmente nas peles e espinhas das sobras de bacalhau as tiras que juntaria ao polme também preparado de manhã do que viriam a ser pataniscas. Até às três, momento em que chegariam em simultâneo os seus quatro funcionários da noite, teria as vitrines do balcão cheias e as frigideiras em combustão lenta, pronto para fumar o primeiro cigarro, à porta do estabelecimento, ainda fechado ao público.

 

Quando Marlene vinha, era a esta hora que chegava. Inicialmente ainda aproveitavam para umas palavras simpáticas de circunstância enquanto ela também fumava um cigarro antes de entrar, mas alguns meses depois esta rotina transformou-se num aceno amigável, após o que Carlos, sem largar o cigarro, abria a porta discretamente e a deixava entrar.

 

Gouveia

despesadiaria às 15:13
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