Domingo, 22 de Junho de 2014

 

Também observei o comportamento da perdiz (Alectoris rufa) na rodovia. A perdiz, mais caçada pela sua falta de destreza que pelo seu sabor, apresenta semelhanças com quem a caça. Veste de caqui. Vai para a estrada sem que se perceba porquê. Tem crias como se fosse haver amanhã — mas a perdiz tem desculpa, desconhece o conceito. As crias parecem mais sensatas que as progenitoras: o som do carro que se aproxima é o sinal que basta para estas recolherem à berma, enquanto aquelas, propriamente despassaradas pelo efeito Doppler, parecem achar que há tempo para ponderar opções. Mesmo sendo só duas, sem contar com as alíneas, os resultados estão pelo asfalto com custos para o utilizador.

 

Uma contagem quase sistemática num troço de quinhentos e quarenta e sete metros escolhido quase aleatoriamente confirmou esta impressão: perdizes adultas espalmadas: sete; juvenis (que são mais que as mães): zero. Também a perdiz perde algo pelo caminho-tempo quando tem a sorte/azar de não perder tudo num ponto do caminho-espaço. Talvez as cacem, afinal, por ódio ao espelho.

 

Mesmo estando fora do âmbito das minhas ocupações, foi-me impossível deixar de notar que, ao nível da relação com a rede rodoviária nacional, a lebre-comum (Lepus europaeus) também parece sofrer de problemas que não afetam o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), ou afetam-no com outra discrição. Eu próprio já atropelei uma lebre-comum, que não comi, mas nunca estive perto de atropelar um coelho-bravo, que iria ao forno. O meu desconhecimento do peso de ambas as espécies na população total de leporídeos e o caráter particular da minha experiência no terreno aconselham a não adiantar, para já, mais considerações acerca desta hipótese.

 

E.

despesadiaria às 00:53
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