Segunda-feira, 23 de Junho de 2014

 

O cartaz foi encaixado entre duas hastes na plataforma: "Proibido fumar". Por pudor, mas também por irritação, atiro o casaco por cima, cubro-o. Acendo um cigarro. Ela outro. Venta muito, mas nossas fumaças sobem em linhas rectas para a Ursa Maior (e Menor conjuntamente). Toda paragem de comboios é um bar sem saber que é. Atrás da estação as ruas sobem, corcundas, mancas, amputadas. Do outro lado, deixaram-nas cair. A fumaça espuma na beira do defumador. As faíscas estalam e giram, o vento as puxa pelos cabelos, elas se desfiam em tranças. Essas fumaças são espíritos. São o mundo a dizer que não há no mundo aspecto privilegiado (o que até não deixa de ser uma perda sem contrapartida). As sombras não param de pular para trás, e de voltar a passo de lobo. E aos poucos a beatitude etílica apaga o real que a apaga; transformará esses bancos de tijolos em correntes de ar, e a esse falso astro aldeão acima dela fará tão verdadeiro quanto o verdadeiro. Mas antes a toalete se completa: uma cidade vai buscar essa linfa escura, puxa-a da terra por milhares de canudos, suja tudo, transpira esse velho mel enrugado pelos alvéolos, é uma cratera habitada. O que é preciso fazer em Nápoles é arrancar os cacos de dentes, obturar pontes e prédios, dar a impressão de que esse velho maxilar pode ainda morder. Uma velha mandíbula de vaca encalhada na areia. Muralha da China de pedra-pomes.

 

Peor

despesadiaria às 07:01
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