Quarta-feira, 25 de Junho de 2014

 

Razões pessoais

 

(ou uma trôpega homenagem a Bartleby)

 

Naquele dia, Mário, solteiro, maior, e contabilista, decidira que era tempo de começar uma nova vida, o que implicava, desde logo, deixar o trabalho no escritório de contabilidade “Almeida Contabilidade”; tomou a coragem necessária e pediu para falar com o Sr. Almeida, a quem comunicou a intenção de se ir embora imediatamente. «Mas porquê?» perguntou, espantado, o velho patrão com quem sempre se entendera perfeitamente. Mário respondeu-lhe sem rodeios, inamovível na decisão, e da forma mais lacónica possível: «Por razões pessoais, Sr. Almeida».

Sem meios de sustento nem rendimentos certos, Mário iniciou uma vida de indigência e marginalidade, cujos contornos, ainda hoje, não estão plenamente compreendidos. E isto até ao dia em que foi detido por dois agentes da PSP, em flagrante delito, quando destruía, com uma barra de ferro, uma viatura de alta cilindrada estacionada em frente ao escritório do advogado mais conhecido da cidade. Nos calabouços da polícia, o Agente Silva, amigo de infância de Mário, censurando-lhe a conduta, perguntou-lhe «Por que caralho andas tu a fazer isto, Mário?», ao que Mário respondeu: «Por razões pessoais, Silva».

Procurado há meses pelas autoridades judiciárias, e após o decurso de um curto inquérito, Mário foi acusado pelo Ministério Público da prática de: três crimes de furto (uma encyclopedia britannica da casa do Dr. Areias, as obras completas do Padre António Vieira da Biblioteca Municipal, e várias obras de Dostoiévski de uma livraria), um crime de dano, dois crimes de roubo (um numa casa de penhores, outro num estabelecimento de compra de ouro), um crime de ofensas à integridade física (agredira um carteiro), e um crime de incêndio (provocara uma explosão no Serviço de Finanças de E.). Na audiência de julgamento confessou a prática de todos os crimes, sem quaisquer reservas. Instado, por fim, a informar o tribunal dos motivos pelos quais os cometeu, respondeu simplesmente: «Por razões pessoais».

No dia da leitura da sentença (pena única de sete anos e seis meses de prisão), o repórter do jornal local “O Diário de E.” conseguiu ainda, enquanto conduziam Mário, algemado, para o carro celular, atirar a pergunta «Por que o fez, Mário?», ao que este apenas logrou responder, sem manifestar qualquer rasgo de arrependimento ou outro sentimento, «Razões pessoais».

Encaminhado para o estabelecimento prisional da cidade de E., Mário continuou procedendo de um modo algo inexplicável, passando a maior parte do seu tempo silenciosamente na cela, sem qualquer contacto com outros reclusos, recusando até a alimentação. E sempre que alguém procurava indagar directamente a causa de tal comportamento, Mário apenas exprimia as secas palavras que ultimamente lhe eram conhecidas: «Por razões pessoais».

Umas semanas mais tarde, numa altura em que estava já internado na enfermaria do estabelecimento prisional, Mário recebe uma visita do Sr. Almeida; este, compadecido pela história do seu antigo empregado, procurou, em vão, compreender e demovê-lo de prosseguir semelhante atitude. De facto, apenas teve tempo de se abeirar do paciente, cadavérico, respirando com dificuldade, e ouvir as derradeiras palavras que, num sussurro arrastado, proferiu: «razões pessoais».

O óbito foi declarado no local poucos minutos depois. E ainda hoje, quem passar pelo cemitério da cidade de E., poderá ler, inscrito na pedra tumular da campa número 791, o seguinte epitáfio: “Aqui jaz Mário R., que morreu por razões pessoais”.

 

EVN

despesadiaria às 06:04
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