Quinta-feira, 26 de Junho de 2014

 

Sou comercial numa empresa há seis meses, mas não vendi um único produto, nem dos que fui contratado para vender nem qualquer outro. Ao início ainda me esforcei. Não muito. Não demasiado, certamente. Mas tentei. Tem-se uma certa gratidão por quem nos paga um salário, por mais magro que seja. Tentei por gratidão, acho eu. Ou por entusiasmo, por desafio. É provável que quisesse provar qualquer coisa a mim próprio, tipo aquele exame irrelevante da faculdade em que nos esforçamos mais um pouco para demonstrar que se quiséssemos podíamos ter sido o que não fomos, nem somos. Tentei, e não consegui. Depois deixei de tentar. E agora sou comercial há seis meses, não, há mais de seis meses, vai mesmo fazer sete meses e eu não vendi um único produto. É lamentável. Chega a ser triste, quando tapamos o lado cómico da coisa. Mas é verdade. Acontece que nestes últimos dias voltei a tentar vender as coisas, as quais fui contratado para vender. Vi uma oportunidade, fui atrás. Entendam-me: ganho o mesmo. Já me tentaram lançar a cenoura da comissão, mas viram logo que eu não era nenhum burro. Fui por enfado, por tédio, por escrúpulo. Percorri mais de 700km, à boleia e de comboio. Fui a duas malditas reuniões. E voltei a não vender nada. Não estou frustrado, não é isso. Estou cansado. Corri, suei, fatiguei-me. Fuji da rotina. Saí. Tive uma vida. É possível traçar uma biografia destes dias. Como tal, não escrevi. Ou se vive ou se escreve. Ou se vive ou nos deixam em paz. Espero que isto não volte a acontecer. Não em breve, pelo menos. Talvez em Novembro, antes de me demitir. Entretanto que volte a rotina. Que volte a maldita mas necessária rotina. A que nos oferece estáveis tempos livres, mornos parêntesis de luz.  

 

pmramires

despesadiaria às 00:21
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