Sexta-feira, 27 de Junho de 2014

 

I

 

A noite de domingo é a premonição de uma semana repetida, mais um pequeno azulejo perdido no padrão azulado da piscina que brilha do lado de fora da janela. O velho relógio orelhudo, companheiro de todos os sonhos e das horas nas quais eles me faltam, vela por mim sentado na mesa de cabeceira. O seu tiquetaquear é o regulador analógico da luminosidade que penetra através das frinchas das portadas. Por cada tique, uma fresta de luz faz-se em duas; por cada taque, cada duas transformam-se em quatro. Os ponteiros dançam, a claridade imaginada cresce nos meus olhos e acorda os sentidos. Uma vez chegada ao estado de alerta em que as orbes ficam do tamanho de enormes moedas de chocolate, dobrar a quetiapina torna-se inútil, quadruplicá-la é apenas estúpido - o meu mundo rege-se por geometrias que medram até um infinito que todos apalpam, menos eu.

Costuma ser esta a hora de escrever, mas nunca o piscar do cursor negro na folha branca foi tão irritante como hoje. Na minha cama de solteira, as aparições ritmadas da linha negra trazem-me a insegurança do gabinete atrás da praça de touros do Campo Pequeno. O gabinete de linhas retas e frias: uma mesa em vidro, uma maca estofada a napa preta, mas coberta de papel sujo, duas cadeiras azuis, desconfortáveis, uma de cada lado da mesa e à esquerda da maca. Os traços austeros da sala são lâminas que rasgam o ser até à razão que o sustenta.

A senhora doutora não tem mais quinze anos que eu, mas cresce sobre mim com esse número em centímetros. O seu sorriso é de fácil desenho nas faces sardentas e o cabelo escorrido tem a cor de um fardo de palha sob o sol tardio da lezíria. Não é a pessoa que odeio, é o reflexo que as suas teorias decoradas me devolvem: aquilo que sou e sempre fui, repuxado, achatado, torcido nos espelhos de uma feira de horrores. Na hora que partilhamos, fechadas naquele gabinete, ofereço-me a cada pergunta-dundum com o altruísmo das mártires. Faço a minha defesa com murmúrios e hesitações que de nada servem para evitar que os buracos das balas cresçam até me sentir pouco mais que uma côdea.

 

- Tu escreves, não é?

Ao recordar esta pergunta, a entoação retórica que me lembro de ver nos lábios coloridos da senhora doutora atinge-me como um soco. Nos seis dias que separam estes encontros fico a lamber as feridas e a afastar as larvas. Preencho tabelas onde se expõem os meus pensamentos negativos, onde identifico as minhas respostas emocionais, comportamentos disfuncionais e ideias alternativas que curem os meus antebraços massacrados. Depois, a senhora doutora estende-me a mão de unhas compridas e bem cuidadas: quer ver o que pensei durante a semana, se houve alguma compulsão alimentar ou discussão gratuita na fila do supermercado, com ovos partidos, escaparates de revistas revirados e um gosto sanguíneo no lábio inferior. Está ali, no chão do quarto, o papel das minhas emoções mal contidas, organizadas por data e situação, escritas com tinta diluída em lágrimas. Deito-me de lado na cama, estico o braço até agarrar a folha A4. Num dos quadrados delimitados a azul está escrito que

- Viver dói. O que é que isto quer dizer?

 

O cursor pisca-pisca. Tenho encomendado um ensaio sobre o significado desta dor, mas mesmo sentindo-a como o elemento mais real do quarto, descrevê-la parece impossível. Levo a mão à barriga. Talvez viver seja uma cólica menstrual gigantesca. Esfrego vigorosamente o meu baixo ventre, o calor da fricção costuma acalmar as contrações cruéis da minha moelinha reprodutora. Ao chegar a minha mão um pouco mais para a direita, sinto nas pontas dos dedos um pedaço e pele mole e frágil. Paro o movimento para percorrer a linha diagonal com os dedos como se a descobrisse pela primeira vez, mas a carne branca, rasgada a bisturi por um talhante glorificado e cosida em sete nós toscos, enfeita-me a barriga desde os sete anos. 

 

S. White

despesadiaria às 08:30
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