Domingo, 29 de Junho de 2014

 

#2 (de 4) :: cinco da manhã ::

 

Quando vinha, Marlene chegava sempre a esta hora. Encontrava Carlos à porta e acendia também um cigarro antes de entrar. A circunstancial troca de palavras a que se sentiram obrigados nos primeiros dias deu lugar a um cumprimento feito de aceno, sorriso e ombros encolhidos, um acordo de silêncio que foi um alívio para ambos. Havia mais rotinas neste contrato tão habilmente não verbal. A cadência a que Marlene puxava o fumo do cigarro mudava três vezes antes de o apagar, e Carlos, sem ainda deitar fora o seu, abria a porta do café e deixava-a entrar. Compensavam esta temporária proximidade física não se olhando, e por isso não havia como saberem que ambos pressionavam os lábios da mesma forma e com a mesma intenção de comunicar, ainda que o dele significasse "faz favor" e o dela "obrigada".

 

Era, claro, a primeira cliente da noite, o que lhe permitia sentar-se onde quisesse. Após semanas de observação e experiência que determinaram o local a maior distância da casa de banho, porta da rua, e máquina de tabaco em simultâneo, o sítio estava escolhido para sempre. A rotina de Marlene no Roda Viva era espectacularmente rigorosa, mas por não gostar da cumplicidade que isso poderia sugerir aos empregados, fazia tudo como se nunca ali tivesse estado. Todas as noites parava fingindo decidir onde sentar-se. De todas as vezes pensava um pouco antes de pedir o café. Poucos dias depois de se tornar habitual na casa, um dos empregados trouxe-lhe um café, sem que ela o pedisse, que lhe deixou na mesa com uma piscadela de olho desprovida de qualquer segunda intenção, mas Marlene disse, ainda antes que ele se virasse, Desculpe, não pedi café. Era uma sopa, por favor.

 

Conseguiu fazê-lo sem ser desagradável, pelo menos no tom de voz ou em qualquer expressividade física, mas, como bem sabia, há palavras que se bastam e que chegam a ser mais eficazes na forma neutra. Nenhuma razão houve para pedir sopa e não outra coisa qualquer, saiu-lhe assim, comeu contra a vontade, e culpou a cada colher o empregado incapaz de evitar uma simpatia não solicitada, demonstração de má educação encapotada de criação de laços de pertença. A sério?, pertença? Pertença a um café mau, frequentado por miúdos bebâdos quando tudo o resto já fechou? E, enfim, que fosse um café bom, um bar de um hotel, um restaurante de luxo ou a pastelaria do bairro. Pertença? Que sopa de merda. Gostava de deixar bem clara a natureza estritamente comercial desta relação, e felizmente não foram necessárias mais do que quatro ou cinco situações idênticas para todos os empregados passarem a agir em conformidade com um mundo civilizado.

 

Numa noite normal, estaria no café entre as três e a primeira luz da manhã, sempre sozinha e sempre com um livro. Os pedidos, salvo intervenção dos empregados, seriam sempre um café à chegada, dois Jameson novos a intervalos de margem relativamente precisa, e novo café imediatamente antes de sair, que bebia ao balcão enquanto pagava. Não vinha todas as noites, nem sempre as mesmas, mas vinha várias por semana, dias úteis ou não, trazendo sempre um livro que lia sem sublinhar. Pelas suas contas fazia 40 a 50 páginas por hora em inglês ou francês e 70 a 80 em português. Supunha que houvesse quem fizesse bem pior, apesar de nenhum dos seus amigos lhe saber responder a que velocidade liam, por muito que perguntasse.

 

Naturalmente, dada a frequência do espaço, era interrompida mais do que gostaria, o mais das vezes com pedidos de cigarros ou isqueiro, algumas outras com conversas que começavam por um expletivo estás a ler? e, pelo menos uma vez por noite, com uma trapalhona tentativa de sedução.

 

Gouveia

despesadiaria às 09:00
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