Segunda-feira, 23 de Março de 2015

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Bazaar

 

2. Na manhã do dia seguinte, enquanto, ainda na cama, Nuno dissipava as remelas do sono em frente ao portátil, foi surpreendido ao descobrir no seu hi5 um espectador inesperado. Lá estava Tomás, o rapaz estranho da noite anterior, visitante recente do seu perfil digital, das suas fotos e comentários, da sua vida exposta na net. Estremunhado pela luz que rasgava o quarto pelas frinchas da persiana, decidiu retribui-lhe a intrusão e, levado não sabe bem por que lapso de bom senso, adicionou-o como amigo. Quando voltou de tomar o pequeno-almoço, já Tomás o tinha adicionado; e não só, também lhe mandara uma mensagem. «Já recuperado de ontem? Parecias um bocado perdido…». Nuno ficou contente por não ser ele a dar início à conversa: «Não estava com grande pica, só isso. E tu, gostaste?», «Sim, diferente do que costumo encontrar quando saio. Mas também com muito mais gente aborrecida. Como tu!», «Ah sim? (notou-se muito?). E onde costumas sair?», «(Sim, um bocado). Pela Baixa, pelo Piolho… festas da faculdade e isso», «São fixes as festas em Belas-Artes?», «São brutais! Devias experimentar», «Não conheço lá ninguém», «Conheces-me a mim agora». Nuno hesitou um minuto, depois escreveu. «Verdade. E quando é a próxima?», «Já na semana que vem. É Carnaval. São sempre as melhores, as mais loucas», «Hum, quão loucas? Devo ter medo?», «Não sei… logo vês.»
Entretanto passou uma semana. Ao volante do seu Polo, Nuno sentia-se ridículo: todo vestido de branco, com pólo, calções e sapatilhas brancas, usava ainda uma fita desportiva de algodão na cabeça. Não tinha nada para o resguardar do frio de Fevereiro. Trouxera uma raquete empecilha que o iria incomodar a noite toda e que ele eventualmente, tinha a certeza, acabaria por perder. Tomás pedira-lhe boleia para a festa. Quando chegou ao início da Rua da Constituição, onde morava, escreveu-lhe para o telemóvel: «Cheguei. Desce rápido antes que alguém me veja nestas figuras». Dois minutos depois, viu pelo retrovisor um tufo de penas e cores que caminhava gingando. «Buenas noches, señor Nadal! Ahahah, muito bem, não me lembro de alguma vez ter visto um tenista em Belas-Artes». Tomás estava vestido de índio. Teve alguma dificuldade em meter a coroa de penas no carro. Trazia jeans justos, muito rasgados e um colete de camurça velho sobre uma t-shirt branca. Tinha a cara pintada de vermelho e várias listas coloridas desenhadas sob os olhos e no pescoço. Os traços de tinta sublinhavam as feições traquinas do rapaz, pensou Nuno. Tomás sorria sempre, solto e sem motivo. «Vamos lá?».
Chegaram ao que pareceu a Nuno um palacete abandonado e decadente. Entraram por um portão velho e ferrugento que dava para um jardim comprido. A festa começava já ali. À entrada, três rapazes vestidos de preto com cabelo comprido e risco preto nos olhos enrolavam três charros e discutiam os projectos que deviam entregar na aula de vídeo da semana seguinte. Um deles sugeriu ao grupo filmarem o arremesso de uma cadeira de rodas pela escarpa das Fontainhas ao som de Alice in Chains, enquanto em baixo, em planos entrecortados, uma criança brincava placidamente com facas de cozinha. Mais à frente, viu duas raparigas fazerem o pino contra uma parede enquanto manejavam pincéis com a boca, desenhando em traços desgovernados de azul sobre uma tela branca. Alguns espectadores, embrenhados no profundo entendimento daquela experiência, seguiam atentamente o movimento dos pincéis.
Chegaram então a um amplo pátio ladeado de salas de aulas e dominado por uma torre alta com profundas fissuras no betão. Eis ali, por fim, a loucura prometida. Era impossível distinguir caras humanas naquela amálgama de braços pintados, plumas e figuras serpenteantes que não pareciam seguir qualquer ordem ou coordenação motora. Na mesa do DJ dançavam vários corpos alienígenas, híbridos e anárquicos como uma babel de figuras. Uma rapariga coberta de balões e apenas de roupa interior rosa tentava esquivar-se às investidas da plateia que, de baixo, se esforçava por rebentar os seus apêndices insuflados. À sua direita, um rapaz com calções e chapéu de pirata usava um penso higiénico como pala sobre o olho esquerdo e, destemido espadachim, apontava aos balões um enorme e gelatinoso dildo preto. Alheia a todo o rebuliço, uma rapariga de kilt escocês, boina verde e camisa branca apertada apenas no botão do umbigo, envergando um ameaçador chicote de cabedal, humilhava um rapaz magro que usava apenas uma fralda de algodão e chinelos de piscina azuis. «Bem-vindo a Belas Artes», disse Tomás, e Nuno deixou involuntariamente escapar um sorriso atrapalhado de apreensão e de envergonhado deslumbramento.
Chegou então à beira deles uma enorme cabeleira loira que se movia sob um rapaz franzino coberto de lantejoulas. «Tomáso! Quem é o teu amigo? Ah, que engraçado, eu adoro ténis. Percebe-se bem porquê, não percebe?». Tomas, embaraçado, pediu logo desculpa a Nuno, mas vendo nele o indício de um sorriso, virou-se para a cabeleira e ripostou: «Xô, bicho feio! Vai cheirar noutro sítio» e, agarrando Nuno pelo braço, puxou-o para o meio da confusão. Viram-se cobertos de confetti, cerveja, fumo e serpentinas. Dois amigos de Tomás ofereceram-lhes shots de tequilla. Nesse preciso momento, o DJ corta a rock-balada que se já se arrastava e decide puxar uma marcha sambada da Carmen Miranda. Toda a gente cantava e, numa pirueta circular que durou dois segundos, um comboínho fez-se e desfez-se junto à ribalta das vaidades quando se viu impedido de avançar na multidão. Depois, num gesto de total irresponsabilidade, o DJ deixou soar as quatro notas iniciais da Hit me baby (one more time). Toda a moderação que ainda restava imediatamente se esfumou nos vapores ferventes da euforia. A dominatrix de kilt aproveitou a passagem da cabeleira loira e montou-a pelos ombros. Tentando não cair, andou por entre as figuras naquela orgia de cores a chicotear quem se aventurasse a apalpar-lhe as coxas. Acabou por desequilibrar-se e aterrar em cima de um grupo de rapazes vestidos de cogumelos, cujas cabeças de espuma serviram de amparo.
Durante mais de duas horas foi nesta torrente que Nuno e Tomás dançaram e beberam, esquecendo-se da insigne realidade nas suas bem compostas e ordenadas dimensões. Nuno, ao contrário do que previra, não perdeu a raquete; mas quando se aproximavam as quatro da manhã reparou que já não tinha consigo o telemóvel. Avisou Tomás que o perdera. Saíram da roda e começaram a impossível tarefa de o encontrar naquela caótica balbúrdia. «Deixa lá, era velho também. Amanhã venho cá ver se o encontraram», disse Nuno.
Também Tomás tinha já perdido as penas da cabeça, e a tinta vermelha começava a escorrer-lhe em pingos de suor pelo pescoço. Ofegavam os dois de cansaço, olhando para a fogueira de braços e cores que continuava a crepitar à sua frente. Ficaram presos naquela visão. Depois Tomás disse, «Anda, quero mostrar-te uma coisa». Nuno seguiu-o em passos incertos por entre os destroços humanos que, ora de gatas ora sentados, tentavam recuperar a verticalidade e voltar para a pista. Tomás meteu por um corredor estreito que passava atrás da torre e, a custo, abriu a pesada porta de aço que nela dava entrada. Finas réstias de luz nasciam em vigias abertas no betão, deixando a descoberto a silhueta de uma escada. Tacteando no escuro, subiram os quatro lanços que davam até ao topo. A cada degrau Nuno sentia o betão tremer com o pulsar da festa lá fora. Quando alcançaram o final, deu por si numa sala ampla e vazia. Havia apenas algumas cadeiras sujas e empoeiradas, um pequeno estrado de madeira ao centro e uma janela circular aberta na parede. «Anda ver», disse Tomás. Nuno aproximou-se da janela e viu a ponte Maria Pia brilhar entre a lua e o rio. Tomás confessou-lhe que uma vez se decidira a desenhar a ponte à luz de prata da noite, depois de uma aula de desenho naquela mesma sala, onde os estudantes aprendem a estética e a técnica no estudo da anatomia dos corpos nus. Contou-lhe que, durante uma madrugada de lua cheia, pintara incansavelmente a ponte nas horas da noite, mas descobrira que é com a aurora, quando o sol oblíquo bate no ferro e o reveste de ouro, que a visão é mais absorvente. O raiar nascente das primeiras horas tece o rendilhado de ferro numa estrutura fina e leve como um arco etéreo de luz. Nuno já não olhava para a ponte. Ouvia Tomás, aproximando-se dele. Quando sentiu o seu silêncio, disse por fim: «És estranho». E Tomás riu-se com uns lábios muito finos e vermelhos, dando a descobrir os dentes brancos com as mesmas tonalidade de luz que descrevera e que Nuno, percebera agora, desejava ardentemente sentir. Foi nesta altura que o beijou entre os lábios manchados de tinta, e soube instantaneamente que a entrega era total.
Na minha opinião de indiscreto observador, a descrição de Tomás da visão da ponte ao nascer do sol só peca por modesta: é a glória fundida em ferro pelas leis elementares que regem a difusão da beleza no universo. Mas nem Tomás nem Nuno viram na manhã que se seguiu a luz da ponte ao raiar do dia. Tampouco presenciaram o aparatoso acidente que, algumas horas depois, o lançamento em queda livre de uma cadeira de rodas provocou entre o trânsito da Avenida Marginal. De conforto vos digo que quando, já terminado o Carnaval, Nuno e Tomás acordaram, ainda puderam ver de relance a cidade e a ponte sob um sol invulgarmente quente para Fevereiro.

 

p.a.leitão

despesadiaria às 10:24
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Terça-feira, 3 de Março de 2015

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     um prejuízo do tamanho da Mónica - (11)

 

     Desci do ônibus com a mochila no dia dezoito de Novembro, três dias depois que o carro do Calucho foi encontrado com ele no porta-malas. Sentei na ponta da Estação com aquela merda no colo e fiquei a pensar no que devia fazer enquanto, do outro lado, dois gajos enfiavam um monte de éguas nos vagões de gado da Companhia Interestadual.

    Uma hora e quarenta minutos mais tarde, telefonei do Bar Milano, na Presidente Roosevelt, para o meu cunhado. Disse que queria vê-lo. Meu cunhado falou: “Meu, aí tão longe?” Ele parecia estar de bode ou meio sonolento. Disse a ele que não era longe, levaria só uns quinze minutos. Ele falou que tinha coisas para fazer. Então olhei para o relógio acima da caixa registradora, entre os espelhos do bar, e disse:
     – Ei, Pelon, só mais uma vez. Estou no Milano e não quero que estejas aqui depois das onze horas. Entendes o que estou a dizer?
     – Merda – ele disse, e desligou.

 

 

    Fiquei sentado, a olhar as palmeiras no rótulo da garrafa. Pelon apareceu por volta das onze e meia. Vestia uma jaqueta preta a imitar couro e usava uma gravata vermelha fina no pescoço. O rosto dele era inocente como uma tigela cheia de cereal. O tipo de gajo com quem não precisas se preocupar. Era ajudante de cozinha. No trabalho, ralava montanhas de queijo e cortava o meu peso em cogumelos todas as noites. Ele ficou a se explicar, dizendo que o carro não queria pegar.
     – Ainda tens aquele saco-de-dormir no porta-malas? – eu disse.
     – Tenho.
     – E já esteves em Bela Aliança?
     – É, já. Mas é muito longe.
    – Bom, essa viagem não vai te custar um centavo, e ainda podes ganhar um monte de dinheiro antes dela terminar.
     Pelon esfregou a parte de trás do pescoço, como se estivesse apalpando para ver se precisava cortar o cabelo.
      – Eu não sei – ele disse.
     A mochila estava enrolada num cobertor debaixo da mesa. Apontei o queixo na direção da janela.
    – Estás a ver aquele gajo do outro lado da rua?
    – Qual?
    – O que está com a mão na cerca.
    – O que é que tem?
    – Nada. Só quero que te recordes que há gente para quem dez por cento dessa merda pode parecer um ano de salário.
     Pelon não disse nada. Ele tinha um jeito meio efeminado de segurar o cigarro, bem na frente do rosto, a pegar o filtro entre as pontas de dois dos dedos.
     – Posso perguntar por quanto pretendes me convencer? – ele disse.
    Eu ainda não decidira se podia confiar nele, nem se importava se confiava ou não. Recostei-me melhor na cadeira, a olhar para um teto que estava a descascar e precisava ser pintado. Depois mantive os olhos em Pelon, agora com a sensação de que estava a perder meu tempo.
     – Tudo bem. Esquece Bela Aliança. Preciso só deixar uma coisa na tua garagem. Dois dias no máximo.
    – Na minha garagem não vai dar – ele disse. Depois seus olhos adquiriram uma expressão de astúcia – Mas tem outro lugar.

 

     Peor

despesadiaria às 14:00
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