Quinta-feira, 3 de Julho de 2014

 

A chuva foi inteiramente engolida pela terra. Era, no fundo, uma cólera de pássaros. Um turbilhão pastoso, adocicado e enjoativo, a escalar essas pequenas dunas de piados e plumas negras. O matagal puxou sobre si o cobertor, enrugou uma paisagem até rebentar numa inércia vaga e vitrificada. E no dia seguinte ainda era mais uma vibração do que um sólido. Um pouco demais à direita. Um pouco demais à esquerda. Na parte horizontal de uma cruz plantada no meio do canteiro, foi desenhado um constelado de estrelas e luas que os anos ensebaram. Ao lado, uma cabeça de abóbora refastelada entre as hortaliças. De mais perto a cabeça movia-se, tornava-se um emaranhado de larvas a enovelar sem dobadoira. Olho para cima, o vento... o céu está encamisolado de amarelo e preto. Ainda posso sentir o chão mexer um pouco. E não só à minha frente. Por toda a parte. Espalmo o tronco de uma árvore e recomeço a babar, a tossir. A coisa cai, mistura-se ao capim e areia. Respiro o cheiro da serragem. Continuo a babar como uma lesma. No chão respingam sobre o arroz espessas vírgulas de gema de ovo. Ergo toda a cabeça. As espumas rendadas do céu foram embora. Deixaram apenas a lua como um grande coque de sangue. Depois da ravina, os gajos em volta do fogo, a comer carne de lata. As caras até vermelhas por causa do calor. Melhor ficar quieto. Se alguém abrir a boca, os outros entram dentro. E do outro lado da cratera, outro grupo de gajos. Esses empurram uma espécie de baldaquim onde desce um chanfro semi-encoberto de anáguas, muito parecido à cana do nariz de um cavalo. Deixaram abertas as portas da camioneta, e o rádio alto para os fazer dançar com as cabeças como bilboqués soltos. Entre eles as folhagens eram echarpes transparentes. Folhas de zinco pintado e lianas de papel-alumínio. Vou de atalhado. Antecipando as minhas perguntas, um gajo barbudo põe o cigarro entre os lábios e aponta-me uma escada que se enfia no chão. Passo sem olhá-lo, um pouco incomodado, como um cliente de bordel diante da puta que preteriu. Lá embaixo, quebradiços, os degraus têm essa vida baça de unhas e pêlos que continuam a crescer depois da morte. Impacientes e friáveis, mal são tocados partem-se em filamentos que se enrolam e, como molas, projectam os degraus seguintes para longe. Nesses relevos apodrecidos, submarinos, o chão de areia abre-se num fervilhado de lascas e tumores. Depois se retrai. Foge desse revestimento duvidoso, áspero e liso. No fundo e à direita, há uma enorme boca aberta na parede. Lá dentro, sem barulho, o arcanjo Miguel esmaga a cabeça do Diabo. Este a rir. A língua para fora, como um trampolim para o satori. Uma labareda sinistra e gratuita que se contorce nela mesma, a se desfiar em vapor. O Diabo é um formigueiro incandescente. Lama viva cheia de bichos revirados. De vapores. Esse bloco solar tem forma de queijo suíço para alojar nessas galerias uma multidão enfeitiçada. As formigas substituem-se sem prejuízos, são como o reflexo de um reflexo. Sobre a carne ulcerada fazem uma sobrepeliz trêmula e sedosa. Pode-se ver o frisson que as afaga. A obstinação delas livra-nos de nossos remorsos. A carne corre de lado e libera as favas que se escondiam nesse bolo de carniças. Fecho bem a boca e enfio as mãos nos bolsos. Mas as minhas narinas se dilatam e a paisagem toda entra por elas. Tenho uma gaja morta a entrar pelo nariz. 4 mil Novembros sobem por um halo calcetado de vértebras. São um cordão de odores sobre esse amontoado de achas que foi uma mulher. Posso vê-la a correr de quatro farejando a terra para desenterrar os 4 mil um a um. O clitóris transformado num rubro tição. Pequena concha febricitante que se incrustou à entrada do Valhalla. A riscar um disco de gelo azul. Tufos de macarrão saem de suas órbitas. Morre para que possamos nos encantar com a sua ausência e para que ela esvazie tudo. Os ossos abertos em leque. Como os raios de uma roda. Feixes de tíbias e perónios suspensos no tecto por correntes. Rocalha de guizos. Fêmures que planam. Um esqueleto completo. Não sei se nada ou voa, naquela poça marinada de peles mortas. O ar se coagula em uma inquietante e rósea gelatina. É um ódio moderado e profundo a antecipar tudo o que eu ia dizer, como um eco que vem à frente.

 

Peor

despesadiaria às 11:16
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