Domingo, 6 de Julho de 2014

 

II

 

Tive uma apendicite quando faltava apenas um mês para o meu oitavo aniversário. A minha mãe culpa o excesso de pão de forma que comi no Verão desse ano. Torcida no cadeirão vermelho, chiando à cabeceira da cama de hospital, muito praguejou contra os americanos e o seu pão de brincar. Na Flórida devoravam-se fatias quadradas de goma sensaborona e brioches luzidios, recheados com doce e agentes inflamatórios. Nas esquinas dos arranha-céus cinzentos, montanhas adiposas movimentavam-se com dificuldade depois de acompanharem o bagel cheio de queijo-creme com litro e meio de coca-cola. Passando por espanholita rechonchuda, em duas semanas experimentei manteiga de amendoim barrada em toda a variedade de glúten enformado. Poucos meses depois, uma lombriguita, esquecida entre vísceras mais importantes, gritava por atenção.

A cicatriz que sobrou dessa história tem outras histórias dentro dela, é uma matrioska desfeita nas réplicas cada vez mais pequenas de si própria. Descasca-se como as cebolas brancas mais carnudas, as que avermelham os olhos do seu carrasco a cada golpe, enquanto o azeite fervilha de antecipação no tacho. 

 

- Lembras-te da primeira vez que pensaste nisso?

- No quê? Na vida que dói?

- Sim. Nunca tinha ouvido isso. Como é que a vida pode doer?

 

Durante a semana que passei no hospital, o cateter da medicação parecia um sapinho irrequieto. Saltava das mãos para os pés, e de novo para as mãos, não esquecendo a passagem pelos antebraços e interior dos cotovelos. As minhas veias não paravam de dançar ao som das rodas das macas a cortar o corredor. Sem aviso, a zona onde tubo de líquido transparente se unia à pele empolava. Marés rebeldes de soro fisiológico e medicação encharcavam as compressas que ajudavam à fixação do cateter. A minha mãe praguejava em surdina e tocava no botão vermelho por cima da minha cama; eu ficava muito quieta entre as grades brancas, tentando adivinhar que parte do meu corpo traria mais conforto à agulha.

Na segunda madrugada que passei no hospital, o badalejar urgente da campainha fez-se ouvir de novo. Ao meu lado, sobre os lençóis estampados com o logótipo da unidade hospitalar, a minha mão inchada tinha honras de pequeno monstro, a chapinhar no lago de eletrólitos.

Como sempre, um enfermeiro apareceu prontamente à porta do quarto. Parado na ombreira, a silhueta recortada pelas luzes do corredor tinha a aura dramática de um super-herói. Chegou de estojo na mão, cheio de agulhas, seringas e emplastros, garrafinhas com álcool, líquidos acastanhados, éter. Sentou-se num banquinho ao meu lado e, sob o escrutínio impiedoso da mãe-galinha, agarrou a extremidade intumescida. Armado com o método do ofício, aproximou a mão às lentes retangulares dos óculos, arrancou a compressa que prendia a tubagem à pele e retirou a agulha brilhante, deixando uma almofada vermelha no seu lugar. Sentindo a ameaça de outras campainhas, logo começou à procura de um novo local onde fosse seguro ancorar.

Vi-o pressionar o metal oco contra a minha pele, primeiro fazendo uma cova redonda, perfeitamente simétrica, e depois, finda a resistência do tecido, abrindo um buraco por onde parte da agulha desapareceu. Fechei os olhos com força para me esquecer da dor. Pensei nas Barbies que ganhara desde que me tinham tirado o apêndice, todas dentro das suas caixas coloridas. Estavam expostas sobre os caixilhos brancos por onde passavam os fios da parafernália eletrónica à volta da cama.

Para frustração de todos, a veia não aguentou nem um minuto inteiro sem sapatear dali para fora, deixando a agulha a espirrar soro para o nada. O enfermeiro procurou outra, repetiu o processo todo. Uma vez, duas, três. Passou para a parte interior dos cotovelos e daí para os meus pés. Uma almofada de alfinetes: era a esse papel que o meu corpo se oferecia. Comecei por contá-las, às ferroadas que me iam esburacando a derme, um passatempo masoquista que depressa larguei. A minha mãe acariciava-me a face, limpava-me as lágrimas silenciosas com o polegar. Num sussurro cansado, perguntei-lhe o que tinha eu feito para estar ali a ser picada assim. Doía tanto!

Uma fungadela ressoou pelo quarto. O enfermeiro estava a chorar.

O meu corpo latejava, as células pulsavam em uníssono. A dor que me unia partia aquele homem em mil pedaços. Na altura, não percebi porquê. Tentei pedir desculpa ao enfermeiro, num murmúrio tímido e ruborizado, mas as lágrimas gordas que lhe escorriam pela face multiplicavam-se. Saiu a correr do quarto para o corredor comprido, onde as luzes zuniam como insetos elétricos, à espera da próxima corrida de macas ou do próximo cadáver minúsculo coberto por um pano negro. Fiquei por alguns minutos a ver as costas curvadas do homem oscilar a cada soluço. Quando voltou, deu-me um beijinho na testa em jeito de desculpa, desembainhou uma nova agulha e atirou a estocada definitiva no meu pé esquerdo.

A minha mãe acompanhou o enfermeiro à porta do quarto com um sorriso triste, cheio da mesma culpa que alagava os olhos do homem. Os adultos e a sua culpa, tatuada em tons lúgubres num espacinho colado ao coração. Trocaram entre si palavras cansadas. Comecei por tentar ouvi-las, chamando a mim a audição especial que os efeitos secundários da medicação me podiam ter dado, mas logo me distraí com outro sentido: atrás da conversa de crescidos, do outro lado do corredor, um par de olhos muito escuros fitava-me com curiosidade. A mãozita que segurava a porta do quarto em frente não era maior que a minha e dela também espreitava um cateter enrolado em compressas.

 

- Não percebo. O que é que dói aqui? Ver o enfermeiro a chorar?

Não. É a Michele

 

(I)

S. White

despesadiaria às 08:00
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