Segunda-feira, 7 de Julho de 2014

    

Meditação em Lagunitas

 

Todo o pensamento novo é sobre perda.

Nisto se parece com todo o pensamento antigo.

A ideia, por exemplo, de que cada particular apaga

a luminosa claridade de uma ideia geral. De que o pica-

pau boloteiro sondando o esculpido tronco podre

daquela bétula negra é, pela sua presença,

algum trágico detrito caído de um primeiro mundo

de indivisa luz. Ou a outra noção de que,

porque neste mundo não há coisa nenhuma

a que o silvado da amora corresponda,

uma palavra é elegia daquilo que significa.

Falámos sobre isto ontem noite dentro e na voz

do meu amigo havia um fino fio de dor, um tom

quase lamuriento. Um pouco depois percebi que,

falando assim, tudo se dissolve:  justiça,

pinheiro, cabelo, mulher, tu e eu. Houve uma mulher

com quem fazia amor e eu recordava como, segurando

por vezes os seus ombros pequenos nas minhas mãos,

sentia um violento fascínio na sua presença

como uma sede de sal, do meu rio de infância

com os seus salgueiros ilhéus, música parva do barco de recreio,

lugares lamacentos onde apanhávamos o pequeno peixe laranja-prata

chamado pumpkinseed. Pouco tinha que ver com ela.

Saudade, dizemos, porque o desejo está cheio

de infindas distâncias. Devo ter sido o mesmo para ela.

Mas lembro-me de tanto, da forma como as mãos dela desmantelavam pão,

da coisa que o pai dela dizia que a magoava, com o que

ela sonhava. Há momentos em que o corpo é tão numinoso

como palavras, dias que são a continuação do corpo justo.

Tanta ternura, aquelas tardes e noites,

dizendo amora, amora, amora.

 

Robert Hass

tradução de Belmiro Oliveira

despesadiaria às 00:03
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