Terça-feira, 8 de Julho de 2014

 

#3 (de 4) :: oito da manhã ::

 

Quando faltam quinze minutos para as sete, à semana, a primeira paragem é ponto de encontro de pessoas que viajam juntas diariamente. Parte delas conhece-se do bairro, umas desde a infância, outras do café, outras apenas da espera. Mas a maioria, como André, limita-se a reconhecer caras, e a cumprir os seus hábitos durante aqueles dois ou três minutos. Para outros são o telemóvel, o Record, ou, como a senhora que chega sempre primeiro, uma arrumação exaustiva da mala de mão. Para André é um cigarro, enquanto confere as capas no quiosque.

 

Dentro do autocarro os lugares estão tacitamente marcados. Levou algum tempo a percebê-lo, mesmo sentando-se sempre no mesmo sítio. Só quando um fedelho se sentou no seu, arrastando o avô atrás de si, é que, olhando em volta pela primeira vez, reparou que havia uma ordem e que, mesmo estando ainda pessoas para entrar e bancos livres, não podia sentar-se onde quisesse. Que sociedade magnífica, pensou, foi para isto que criámos a civilização, e acrescentou sem ironia como se estivesse de facto a falar com alguém.

 

À terceira paragem o autocarro enche, e só André, agora com excesso de consciência, repara que a ordem se mantém. As duas amigas adolescentes junto aos lugares dos velhos, o rapaz com auscultadores excessivos no corredor dos bancos de trás, o homem com a pasta castanha à conversa com o motorista. À medida que as paragens ficam para trás, também a previsibilidade se vai reduzindo, mas André ainda sabe em que paragem entra Marlene, às sete e dez, na 24 de Julho. Não entra todos os dias, mas, apesar disso, com frequência. Tem uma mochila desportiva, óculos escuros, cabelo apanhado em cima, e quase sempre o mesmo casaco de couro preto, que lhe dá pela cintura, fechado até ao pescoço, deixando apenas espaço para o fio dos auscultadores que tem nos ouvidos. Fura lentamente entre a população do autocarro até se encostar ao vidro oposto à porta de saída. Fica a centímetros de André, que está sentado no primeiro dos bancos de trás. Não pode saber que ela não está a acordar como os outros e portanto fantasia que emprego terá, o que terá na mochila, ou onde vai sair. Gostava de a poder impressionar, de dizer alguma coisa, de ter a facilidade de assunto dos outros utentes do bus, mas não é desse material que é feito.

 

Quando sai, ela continua, e André ainda procura prever a restante viagem que já não fará enquanto entra no edifício, quando atravessa a parede do ar condicionado que sente na nuca, dentro do elevador e por fim à secretária. Quando liga o computador já não está no autocarro. Encaixa na cabeça o auricular para o primeiro telefonema do dia. Há um espelho em cada mesa, ali colocado pelo departamento, de forma a que o operador saiba que está a sorrir quando fala com o cliente. Eles sentem, estava escrito na idiota circular. André veste o sorriso e enfrenta o reflexo. Por Deus, sou o vendedor mais socialmente incompetente da história. Controla o risinho provocado pela conclusão e diz o primeiro bom dia da manhã.

 

Gouveia

despesadiaria às 13:17
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