Terça-feira, 22 de Abril de 2014

 

A Rapariga do Cineclube

 

Chegou ao cineclube quando o filme estava quase a começar. Pediu-me rapidamente um bilhete e procurou as amigas num misto de excitação e ansiedade, de quem não quer enfrentar o filme sozinha. Tinha uma aparência extremamente frágil mas, suspeitei, um carácter que nunca lhe permitiria admitir essa evidência.

Como uma lobinha no seio da alcateia, instalou-se no lugar central de um grupo de cinco jovens visivelmente contentes por ninguém ter faltado àquela pequena reunião.

Quando o filme começou tirou o gorro de lã e mais de uma vez deu a ideia de se querer livrar do cachecol; de resto, não fez mais nenhum movimento assinalável até os créditos finais riscarem o ecrã. Depois levantou-se, deu a entender que voltava já e, num andar rápido e ligeiramente saltitante, veio ter comigo.

Fixando o olhar ora no meu ombro direito ora no esquerdo, com o sorriso embaraçado de quem se encontra surpreendida pela sua própria audácia, disse-me que era relativamente nova na cidade, que até hoje desconhecia a existência do cineclube, que as poucas amigas que fizera lhe disseram que nós estamos sempre à procura de novos elementos e que ela adoraria se pudesse ajudar.

Tinha uma voz aguda e falou com todas as hesitações de alguém que está a rememorar aquilo que tem para dizer.

Eu estava extenuado e fiquei realmente surpreendido com a abordagem, mas enquanto ela falava não consegui evitar que os meus pensamentos se debruçassem sobre a pequena suspeita de que ela teria sardas no pescoço. Quando acordei disse-lhe que era uma bela ideia ela juntar-se a nós, agradeci-lhe em nome de todos a generosidade e convidei-a a aparecer um pouco mais cedo na próxima sessão, que teria lugar no mesmo dia da semana seguinte, de forma a apresenta-la ao resto dos cineclubistas e inclui-la nas tarefas. 

De início, ela pareceu ficar desconfiada com a minha resposta, como se não acreditasse que pudesse ser assim tão fácil. Apanhou o cabelo e tudo, deixando apenas uma repa linear cobrindo a testa. Acho que esperava que eu ao menos lhe desse uma ficha de inscrição ou algum papel para preencher. Depois, ainda meio constrangida mas com sorriso sedutor, disse-me que ficava muito contente por poder fazer parte do cineclube e que na próxima semana seria com muita vontade de ajudar que chegaria mais cedo.

Afastou-se em rápidos passinhos que me pareceram de novo ligeiramente saltitantes.

Passado um momento, ao sair com os amigos, fez-me um aceno cúmplice, como se me dissesse até para a semana.

Não sei o que entretanto se passou e ainda hoje penso muito nisso, mas no cineclube nunca mais ela apareceu.

 

pmramires

despesadiaria às 13:41
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