Terça-feira, 15 de Julho de 2014

 

III

 

A Michele era a miudita loira do quarto em frente. Tinha mais um ano que eu e uma cicatriz com menos três pontos que a minha. Quando deu entrada nas urgências pediátricas, já quatro sóis em miniatura se preparavam para me alumiar as tripas, expostas na mesa de operações. Ao contrário de mim, cujo diagnóstico incerto fizera suar a equipa de médicos de serviço no turno da noite, um primeiro olhar à ficha clínica da Michele lançara de imediato o alerta. Dobrada pelas dores, agarrada à fossa ilíaca direita, com as últimas refeições vomitadas num alguidar e olhos febris a pedir clemência - caso óbvio de mais um apêndice pútrido, mal tão comum nos petizes.

O choro do enfermeiro fora de tal forma histérico que atraíra a atenção da Michele. Nada de extraordinário aqui. Caso semelhante, em que os lençóis pintalgados a sangue fresco não fossem os meus, também seria alvo do meu reparo. Os músculos doridos, a cama desconfortável, a almofada estranha, tudo contribui para a insónia do internamento, mesmo quando se fala de crianças. A Michele estava tão acordada no seu quarto quanto eu; a mãe fora derrotada pelo cansaço: dormia no seu cadeirão, com as costas tortas e a promessa de um torcicolo. Enquanto a mulher sonhava estar noutro sítio que não aquele, a filha bisbilhoteira  levantara-se, abrira a porta com cuidado para as dobradiças não gritarem muito, e acabara ali, a ver a outra mãe conversar com o enfermeiro piegas. E a ver-me a mim, que a vi a ela, até um sorriso maroto me desejar boa noite e a porta se voltar a fechar.

No dia seguinte, cumpriram-se as formalidades: logo antes do almoço, a Michele apareceu no meu quarto, apoiada no poste onde pendurava a sua medicação. A minha mãe admirou a rapidez com que a pequena se levantara da cama. Não gosto de estar deitada. A desenvoltura desta e de outras respostas deixava-o bem claro. Eu encontrava-me no extremo oposto do espectro. Estendida naquela cama há três dias, e mesmo detestando as arrastadeiras, mais o cheiro nauseabundo que a urina concentrada deixava no quarto, ainda não obedecera às ordens das enfermeiras, dos médicos, de toda a gente. Muito era o medo de me mexer, quanto mais de voltar a andar. Não queria passar mais noites a ser picada - além disso, como é que se caminha com o soro no pé? Mas se te levantasses podíamos brincar. Brincamos assim, disse a minha boca, inundada de mimo.

Assim, a olhar? A Michele estranhou a minha infância contemplativa, falhava em entender o lugar onde as experiências resultavam de exercícios conceptuais e do muito que se lia. A bronquite crónica e as otites agudas impediam-me de ter peluches a enfeitar a cama ou de retirar as Barbies das caixas; aprendi a imaginar que tinha uma amálgama de pelúcia furta-cores a tapar a colcha e que os cabelos platinados das Barbies brilhavam quando brincava com elas. Estas ideias saciavam-me a traquinice. Na altura, não o sabia explicar desta forma - e com as mãos cravadas nas grades da minha cama, a Michele só abanava a cabeça. Devias sair daí. Eu encolhia os ombros às acusações de preguiça, mostrava os dentes à indignação. Havíamos de nos dar bem à nossa maneira. Eu era a cabeça, ela era o coração.

Notei que os tornozelos da Michele escapavam das calças do pijama. Lembravam canas jovens, frágeis talas de um verde ligeiro e doce, mas com força suficiente para rebentar o mais compacto tapete de alcatrão. A pequena explorou todo o quarto empoleirada nos finos caules, de raízes guardadas nas pantufas felpudas. Contou as rachas da parede sem esquecer nenhuma, estudou os padrões gastos do linóleo que forrava o chão, leu-lhes as histórias e aprendeu o nome de cada mancha. As nossas mães trocavam dicas, discutiam as melhores posições de descanso nos terríveis cadeirões vermelhos. O súbito reboliço armado no meu aposento de campanha deliciava-me.

Não tardou muito até a Michele colar o nariz ao plástico transparente das caixas das Barbies. Gabou a coleção-cápsula que o mecenas, meu pai, montara ali em tão pouco tempo. Os seus olhos devoraram cada detalhe da princesa, da tratadora de golfinhos e da pasteleira, e não pôde evitar fazer da boquinha um buraco muito redondo ao descobrir a Barbie Piloto de Aviões. Foi essa a boneca que pedi à mamã para tirar da caixa, exceção feita para aplacar as dores e manter a companhia. A Michele fê-la saltitar sobre as minhas pernas cobertas de branco. Juntas contámos a história da viagem de Bárbara, a rainha dos cockpits cor-de-rosa, às escarpas níveas de uma Courchevel imaginada.

Quando precisei de fazer xixi, a Michele aproveitou para participar numa corrida com as macas - ganhou. Voltou depois para junto de mim, cansada e com os tímpanos fervidos nas reprimendas da mãe. Entre expirações aflitas, falou-me das saudades de andar de bicicleta, de brincar à apanhada com os vizinhos, de jogar à bola com o irmão mais novo. O miúdo, cujo nome jaz debaixo do nariz torto que me lembro de lhe ver, tinha a minha idade e aparecia todos os dias para a visitar. Venho cá com ele, prometeu.

Nesse dia, o sol de Novembro foi mais rápido na partida do que recordávamos. Almoçámos no meu quarto, a senti-lo escaldar-nos os braços pelas vidraças, tão entretidas nas nossas confabulações que nem notámos a falta de sal no arroz. Depois chegou a hora do jantar, peixe cozido com batatas servido em tabuleiros de plástico cinzento. A Michele despediu-se de mim com os seus modos despachados quando reparou que a sua posta de pescada arrefecia ao som as ordens arreliadas da mãe, mas voltou no dia a seguir, bem cedo, ainda a mastigar o pão com manteiga. E no outro.

 

Depois de dois dias e meio de folia, a Michele insistiu em apresentar ao irmão a nova amiga, a menina rechonchuda que não se queria levantar e à qual tinham tirado o mesmo bocado de barriga, mas deixando uma cicatriz muito mais feia. Mostra-lhe!, pediu. Aproveitando a distração dos meus pais, ocupados a receber os primos em terceiro ou quarto grau que iam aparecendo no hospital, mais por educação que por cuidado, levantei uma ponta da compressa. Os centímetros dianteiros daquele caminho sinuoso, terra lavrada de fresco, pintavam-se com um púrpura inflamado; os três primeiros pontos da cicatriz, que latejaram durante anos em antecipação às primeiras chuvas do Outono. Aqueles três pontos extra que a Michele não tinha.

 

- Ficaram amigas depois de saírem do hospital?

- Não.

- Porquê?

(I, II)

S. White

despesadiaria às 08:00
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