Sábado, 19 de Julho de 2014

      

- Não é hoje o teu dia de escrever?

- Sim, é hoje mesmo, e não outro dia.

- E então, por que não escreves nada?

- Nestes dias lembro-me sempre daquele verso de Alcides, n’O Misantropo, em que diz que devemos pôr freio nas comichões que temos de escrever, sob pena de, se o fizermos, expormo-nos a tristes figuras.

- Não conheço esse verso.

- Claro que conheces, até o Bloom o cita n’O Cânone Ocidental.

- Não me lembro, mas sobre esse assunto creio que já li algo em Camus.

- Penso que sim, n’O Mito de Sísifo talvez; há uma nota em que explica a mediocridade e a massificação que invadiu a literatura.

- O Faulkner também diz uma merda qualquer sobre tudo isso: de que não há mais nada de novo para se escrever, ou o raio.

- Essa é, na verdade, a razão e a natureza do modernismo.

- O Joyce escreveu aquela que é a maior obra do século XX, começando com um gajo a barbear-se; não haverá cena mais banal e sem interesse, e no entanto…

Porra!, já me cortei; tenho de deixar-me destes disparates enquanto me barbeio.

 

EVN

despesadiaria às 19:44
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014