Segunda-feira, 21 de Julho de 2014

 

Caderno marinho, 02 (não-ficção)

 

Chove. O bólide acabou de girar. Na proa, debaixo de um mesmo guarda-chuva, dois homens em pé, duros como acessórios de teatro. Outros dois, afastados, usam capas. Não gostaram de mim, e eu correspondi. A água está mosqueada: papéis, folhas, beatas. Vira para um lado e outro com movimentos de mulher gorda que dorme. Não pára de se franzir, de se desfranzir, como uma grande gola amarrotada. Agita-se. Arqueia as costas, cheias de pústulas e malhas cobertas por uma penugem urtigante. Desenruga-se, mas sem soltar a mão dessa sua vontade canelada em espiral. Estica-se. Lambe, aderente à pantorrilha da pilastra. Beija-lhe a casca farinhenta e se escalona acima do lixo cremoso que ondula. É uma pequena vibração que sobe como um galope em câmera lenta pelos flancos do barco e se comunica ao deque. E então borbulha, escamosa, e salta como um animal em direcção ao movimento convencional que a contraria. Envia uma saraivada de salpicos contra os degraus mais baixos do trapiche. Turbilhona; massa loura e fermentada que, iluminada apenas pelos reflexos do seu gume diagonal, rompe a tela de espuma por onde se atira como um milhafre, bico à frente, e cola suas ventosas. Ouço suas sucções, seus chupões nas vigas de madeira. Cada lúnula, cada arteríola corrediça, reduzida a uma espécie de alfabeto inútil a dar com a coisa ou o lugar; aproximando-se, de quique em quique, a um panorama de astros vazios, descabeçados, desligados de qualquer projecto. O mar inteiramente engolido, e incapaz de servir neste mundo, em qualquer mundo.

 

Peor

despesadiaria às 04:50
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