Terça-feira, 22 de Julho de 2014

 

IV

 

Na manhã do quinto dia, levantei-me. Finalmente! O soro continuava no pé esquerdo, a pequena extremidade resiliente. Sentia-o dorido, mas conhecia a alternativa e não gostava dela. Além disso, ouvira as enfermeiras dizer à minha mãe que faltava pouco tempo para mo tirarem dali. Para me tirarem dali. Resolvi então largar o conforto das almofadas, com a devida ajuda de uma enfermeira e o apoio moral de metade das funcionárias do piso. O momento em que os calcanhares conheceram o frio do linóleo ficou cristalizado como uma pontada aguda, mil alfinetes desejosos por se cravarem na carne limpa. Ao olhar para os meus pés, quando finalmente me tive em cima deles, vi a barriga empandeirada, cheia de vontade de fazer xixi. Mas eu não queria ir até à casa-de-banho; o destino mais importante era o quarto da Michele e a imensa saudade de estar sentada numa sanita não superava o desejo de surpreende-la.

Atravessei o corredor, inchada de mijo e de orgulho. A memória não o achava tão comprido e estreito, quase como um tubo, um canal para drenar vidas e escoar as lágrimas que se perdiam com elas. As paredes eram brancas, como as dos quartos, com uma faixa vermelha no meio. Branco e vermelho: as cores do hospital, as cores dos pensos e do sangue que os tingia.

O quarto da Michele não era muito diferente do meu. Duas camas, separadas por uma cortina bege, dispunham-se com as suas aparelhagens médicas na parede contígua à entrada. A que estava mais perto da porta pertencia a um pretinho de compleição muito delgada. Partira a perna ao confundir os baloiços do parque infantil com trapézios e por pensar que as meninas da idade dele gostavam de circo. Na outra cama, próxima da janela aberta para o parque de estacionamento, deitava-se a Michele.

Aproximei-me timidamente, arrastando os pés como uma velha - a estupefação fizera-me velha. Nunca tinha a visto a Michele deitada. Raios, achava mesmo que ela nunca se deitava! Dormia em pé, como os passarinhos, ou pendurada nos fios que escapavam do teto, nos canos expostos nas casas-de-banho, a fazer o pino como os morcegos. E mesmo obrigado ao descanso pela química milagrosa do ser, o corpo não sossegava realmente. Imaginava uma Michele sonâmbula, olhos fechados pelas pálpebras tremelicantes e corpo em frenesi. Via-a a dançar ao som de músicas sonhadas, para acordar de mente vazia e físico dorido -  uma dor boa, o ténue pulsar que se sente quando deixamos o corpo esquecer-se dele próprio no chuveiro após uma longa caminhada.

Chegara a minha vez de enterrar o rosto entre as grades da cama. Os nós dos dedos embranqueceram da força com que agarrei as ripas de metal. Perguntei à Michele porque não se levantava, deitei a língua de fora e tudo. As Barbies estavam no meu quarto, era para lá devíamos ir, atravessando de mão dada o trânsito de macas que nos separava durante a noite. A verdade é que ali não havia mais nada além de um urso amarelo com um coração bordado na pança e meia dúzia de cartões equilibrados no ângulo agudo formado pelas suas metades - exibiam-se nos caixilhos brancos, gémeos da prateleira improvisada onde a minha coleção de bonecas não parava de crescer.

Dói-me a barriga. A voz sentida não mentia; só a vontade cega de desviar a solidão fazia nascer a dúvida. Como é que te dói a barriga, se aqui nos engordam com comida saudável, a saber a cartão? Os olhos, vitrais iluminados pela aurora de um dia quente, pediram-me que lhe tocasse no abdómen. A zona do ventre, especialmente a tapada pelo penso, estava dura como uma tábua. Em vez de dançar, a Michele fizera mil abdominais durante o sono.

Uma mão tocou-me no ombro e deu-me um choque. Desculpa, querida. A mãe da Michele passou por trás de mim para se sentar no cadeirão de sempre. Parecia estar com uma crise de alergias, olhos vermelhos, líquido transparente a escorrer do nariz para os cantos da boca, torcidos num esgar triste. Explicou-me com paciência que a Michele não podia brincar. Sugeri trazer as Barbies até ali, carregá-las a todas e construir uma pilha de caixas e cabelos loiros nos pés da minha amiga. Em resposta às minhas boas intenções, duas cabeças abanaram um só não. Fui-me embora, arrastando o peso de cem grilhões presos aos meus tornozelos e aos meus pulsos.

De volta à minha cama, desfiz-me em perguntas cuja resposta a minha mãe ou desconhecia ou tinha a piedade de não dar. Voltei a imaginar as brincadeiras; já não era a mesma coisa. Para começar, a Barbie Piloto permanecia fora da caixa, sentada no caixilho branco, com as pernas de plástico esticadas e os saltos dos sapatinhos cor-de-rosa a apontar para o corredor. Não conseguia parar de fitar aqueles pauzinhos de plástico,  as setas inequívocas do fluxograma das recordações - uma pescadinha de rabo na boca.

No final do dia aconteceram duas coisas.

O enfermeiro-chorão apareceu no quarto pouco depois da travessa do lanche. Bateu na porta aberta para se fazer anunciar. Os dois batuques consecutivos acordaram-me do devaneio doce onde eu e a Michele brincávamos às escondidas na sala-comum da enfermaria.

A claridade tardia deixava-me ver-lhe os traços com nitidez. Percebi logo porque chorara ao torturar-me os vasos escorregadios. O homem tinha o ar de quem chorava se sentisse o cheiro a sardinhas soltar-se do quintal do vizinho ou se deixasse cair uma melancia insertada à beira do frigorífico - e as razões transcendiam as frivolidades da tristeza como eu a conhecia. Por trás das lentes retangulares, mal equilibradas no nariz estreito, o vazio das orbes esverdeadas desarmava quem nelas se demorasse.

Quando se aproximou da minha cama, agarrou no meu pé e tirou de lá a agulha, o alívio que vi relaxar-lhe os ombros superava o meu. Já não vais ser mais picada. Um sorriso mascarado fez o anuncio solene. Retribuí. Ambos mentíamos, o enfermeiro por lhe faltarem as forças para sentir coisa alguma, eu por agarrar as mechas loiras da Michele entre as mãos perdidas no colo.

A Michele. A segunda coisa que aconteceu nessa tarde foi levarem-na da enfermaria.

Um grupo de fantasmas aprumados encheu-lhe o quarto; apinhavam-se até à entrada e tapavam-me a visão. Não sei o que se passou lá dentro, ouvi apenas os soluços soltos da mãe da Michele, o sonoro ponteiro do desespero. Minutos passaram, e eu mergulhada na sombra sufocante da incerteza. Os abutres escoltaram a maca da Michele dali para fora. Colados às grades, ergueram em torno da miúda um muro caiado. Foi esta a última vez que vi a Michele, sem a ver realmente.

(III, III)

S. White

despesadiaria às 08:00
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