Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

 

É bem sabido que a confissão silenciosa fez rolar inúmeras cabeças nos túneis da história. Desconheço quantos eruditos terão arriscado estudos acerca desta necessidade tão bizarra, quando podiamos simplesmente fingir sagacidade com o silêncio. Começo a desconfiar que à semelhança do tempo em que os sábios calcavam uvas nas planícies da Grécia, o futuro será de quem garantir segurança, amor, dinheiro, sem necessidade de recorrer ao conspurcado comércio das palavras. Existe mesmo qualquer coisa de germânico nesta contumaz tendência para fingir uma sensibilidade digna de registo, inventariar a anormalidade, catalogar a personalidade bizarra, descrever a sísmica e caótica pulsação da mente, inventar um sofrimento original para esfregar no focinho da humanidade. Caramba, que mal nos fez a humanidade para recusarmos o nosso destino de estúpidas ovelhas? E terão as ovelhas que ser estúpidas? Está muito bem documentada a existência de rebanhos de ovelhas dignos dos maiores louvores para não falar da espetacularidade civilizacional das baratas. Bem, a verdade é que os mediterrânicos sempre contaram histórias mas nunca se preocuparam muito com a perenidade da sua conversa. Ou melhor, confiavam na memória dos seus miolos. Mas nós somos filhos da imprensa mecânica, que digo eu, somos magníficos hologramas digitais. Fizeram-nos soletrar o nome, dominar a técnica da escrita (nos locais apropriados, note-se, nunca nas paredes alheias, ou nas nádegas das criadas, usando gotas de cera derretida; não, não, isso está inteiramente proibido). Fomos, portanto, forçados a codificar as nossas emoções (risos) e a responder a um nome e número de polícia, a fim de reclamar direitos sexais e económicos. Perante tão trágica situação, ainda temos que gerir o quotidiano. Enfim, coragem.

 

Pode dizer-se que o meu caso é mais um prolongamento, inútil, na melhor das hipóteses, exaustivo, desta especialização enigmática: a crença nos efeitos estéticos desta bizantinice da linguagem natural (quando já toda a gente percebeu que o futuro é das programções e das linguagens artificiais). Os meus dias têm sido atravessados por choques inconscientes com a ideia de artíficio, ao que eu costumo responder com um pano encharcado em detergente, ou seja, a ideia de sujeito, isto para me esconder da roda vertiginosa e ameaçadora da informação infinita. Até uma cabeleireira se rirá se eu disser que a maior comédia consiste nesta necessidade de atribuir classificações, ordenar estímulos, ideias, coisas, meu deus, coisas, através de um tecnologia tão arcaica como o alfabeto. 

 

Façamos uma curta experiência, como nos livros de péssimo gosto, simplesmente olhando em redor. No meu caso, que vejo? Um helicóptero recortado na parede celeste, o barulho exasperante do teclado, uma caneca de produção industrial (rachada), os veios na madeira da mesa (lembrando ao observador a relação ténue entre a vida biológica e a utilidade), a cortina branca coalhada de sol, a estúpida planta de interior, uma fileira de livros manchados de humidade, o telefone (vergonhosamente desautalizado) e cruzando tudo e em todas as direções, as setas do tempo e da memória, apontadas a todos os outros sinais possíveis, infinitos. Dirão que a racionalidade humana limita esse doloroso campo de possibilidades, e só com a barriga cheia é possível sofrer com a indecisão perante a multiplicidade das coisas. Eu direi que a minha barriga tende a esvaziar-se dada a minha decisão em sobreviver através de uma triste e insólita prostituição das minhas experiência mentais. Veja-se esta minha indelicadeza ao submeter os leitores a problemas de economia doméstica. O que se seguirá: ténicas de pedinte romeno? O caro leitor poderá sempre recorrer à Ópera. Da minha parte, não faço compromisso de originalidade ou inteligência. O meu cérebro é um velho imperador apunhalado, que a meio da sua queda política descobriu não ser sequer real, mas apenas fruto do sonho de um pobre escravo acorretando numa cave húmida, onde não rompe a mais pequena réstea de luz. Mas não nos cansemos com lamentos. Os morcegos não precisam de olhos para rasgar a treva das abóbadas cavernosas. 

 

alf

despesadiaria às 16:38
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