Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

 

Às dez da manhã no Centro de Investigação de Confins. Telefone-me quando estiver a chegar para lhe dizer em que sala me poderá encontrar.

 

Há uma planta traumatizante à porta do complexo onde se situa o Centro de Investigação de Confins. Tem muitas cores, números letras, círculos e quadrados em conjugação estudada. Vê-se que não foi feita por uma besta qualquer, mas como é desprovida de você está aqui, a sua utilidade é limitada.

 

Uma mistura de sorte com restos atávicos de navegação por orientação magnética (o meu bisavô paterno era albatroz) levou-me ao edifício do Departamento de Proximidade e Afins, que, na planta supra, me tinha parecido ser onde se alojava o Centro de Investigação de Confins. A porta de vidro deslizou perante mim (tenho este efeito sobre algumas portas), revelando um átrio vazio, iluminado apenas pela luz que tal como eu atravessava a soleira. Do outro lado do átrio, um balcão com secretaria escrito numa folha A4 atrás do qual estava uma cabeça de cera com secretária escrito na testa.

 

O eco dos meus passos atravessando o átrio infirmaram a tese da cera. A cabeça levantou-se, rodou ligeiramente, como que movida por um sistema hidráulico, quase confirmando a tese do imobilizado, e olhou para mim. Bom dia. Procuro o Centro de Investigação de Confins, onde combinei encontrar-me hoje de manhã com o Sim Significa Não.

 

O Centro de Investigação de Confins já não é aqui.

 

Esperei seis segundos por informações complementares. E é onde, agora?

 

A questão é complexa. No movimento de ir para outro edifício, o Centro de Investigação de Confins mudou também de nome, como se o antigo se tivesse perdido no percurso, um chapéu que o vento leva e ninguém consegue apanhar, uma moeda que cai e rola até à sarjeta.

 

Mais cinco segundos. Como se chama, então? E onde fica?

 

Olhou-me de alto abaixo, mantendo o movimento da cabeça sem irregularidades e sem se deter em nenhuma parte do meu corpo em especial, algo que me ofendeu um pouco. O Centro de Investigação de Confins chama-se agora Unidade de Estudos Telemétricos, mas toda a gente aqui continua a conhecê-lo por Maria do Rosário.

 

Oito segundos. E...

 

A menina sai por onde entrou, vira à sua esquerda e segue sempre em frente até não poder mais. A física encarregar-se-á de lhe resolver esse problema. Aí chegada, vira à esquerda. A Unidade de Estudos Telemétricos fica no Pavilhão 1. O Pavilhão 1 é fácil de identificar, uma vez que é, precisamente, o pavilhão que não está identificado como sendo o Pavilhão 1, da mesma forma que o Pavilhão 2 é aquele que não está identificado como Pavilhão 2 e por aí adiante.

 

O Pavilhão 1 era verde, tal como o Pavilhão 2 e por aí adiante. Lá, nada se sabia do Centro de Investigação de Confins, da Unidade de Estudos Telemétricos ou da mudança de nome e instalações. O Sim Significa Não não tinha ainda sido visto naquele dia, mas foi-me proposto que casasse com o filho encalhado da Maria do Rosário em troca de informações com substância. Preferi limitar as minhas iniciativas a telefonar, tal como combinado, mas sem resultados. Depois preferi enviar SMS, com idem aspas. Restando-me concluir que tinha faltado entender alguma informação essencial à prossecução do meu caminho, meti-me no comboio e rumei ainda mais a norte, onde param as ondas nesta altura do ano.

 

E.

despesadiaria às 11:47
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014