Sábado, 26 de Julho de 2014

 

Quando terminei o nono ano, os meus pais mandaram-me estudar para a cidade de V., que dista da aldeia de N. cerca de 15 quilómetros. Durante os três anos em que frequentei o liceu apanhava todos os dias o comboio no apeadeiro da aldeia, demorando a viagem até à cidade nunca menos de 20 minutos (por vezes até mais de meia hora, dependendo das várias vicissitudes que afectavam diariamente a velha linha do Minho). Os comboios, esses, não passavam de velhas carruagens, compradas em segunda ou terceira mão à Itália ou à Alemanha (e hoje em dia a circular num qualquer país da América Latina), rebocadas pelas locomotivas cor-de-laranja a diesel da CP. Além do estrondo que faziam ao iniciar a marcha, lembro-me bem dos avisos “ATENÇÃO ÀS CATENÁRIAS – PERIGO DE MORTE” afixados de cada lado dos enormes motores das locomotivas, e cujo teor sempre li com estranheza (ainda hoje a linha do Minho está, na sua maior parte, por electrificar).

Lembro-me também das viagens de ida, pela manhã, com as carruagens à pinha, onde íamos todos silenciosos, sonolentos, apeados nos compartimentos das portas e das retretes. Uma merda que rapidamente compreendi foi a de que a retrete do comboio era um local a evitar.

Das viagens de regresso lembro-me sobretudo dos bêbados e das nossas brincadeiras (por natureza estúpidas). Há um bêbado em particular que recordo ainda hoje, especialmente por uma expressão que jamais esquecerei. Uma boa parte destes desgraçados regressavam da Galiza, onde teriam ido procurar trabalho nas obras, ou realizar qualquer biscate. Tresandavam a bagaço (quando não a bedum), expulsando todas as almas que se encontrassem nos lugares próximos, e davam origem às mais diversas confusões e desordens. Apreciavam a arte do canto (actividade que era incitada, e por vezes acompanhada, por nós ou outros grupos de estudantes), do disparate e da vozearia, de ir à retrete, e raramente eram detentores de título válido de transporte, com o que causavam uma carga de trabalhos aos picas de serviço. Devido certamente às excursões galegas, exprimiam-se num português curioso, pejado de asneiradas e expressões extraordinárias (particularmente quando se zangavam). Uma delas, proferido pelo tal bêbado, consistia no seguinte: “Me cague na hóstia de frango”. Não mais voltei a ouvir alguém expressar semelhante frase, ou tampouco parecida. Ainda hoje, passados todos estes anos, não sei o que raio significa. Porém, a cada passo recordo-a nitidamente, e não são poucas as vezes em que fico tentado a dizê-la publicamente (como que numa pequena homenagem ao bêbado do comboio da Linha do Minho). No fundo, creio que aprecio a frase “me cague na hóstia de frango”, seja pela sua estranha formulação ou pela maneira como soa. 

 

EVN

despesadiaria às 20:00
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