Segunda-feira, 28 de Julho de 2014

 

Bom dia, Vietname

 

A dada altura, durante um dos primeiros verões da minha adolescência, descobri que sentia um grande prazer em passear completamente sozinho e em observar atentamente a fauna na e da vizinhança. Era assim que me sentia, um explorador em terreno hostil, mesmo sem ter - admito-o, grande consciência das implicações do desempenho desse furtivo papel. O meu plano era testado e provado, simples e sempre o mesmo. Escondia-me nalgum sítio improvável, tentando fundir-me imóvel com o cenário e então ficava à espera de algo. Procurava de tudo mas sobretudo comportamentos, digamos assim, que não estivessem ainda registados na minha lista merntal de comportamentos. Uma vez detectado o “culpado”, chegava a passar horas escondido a observá-lo e a tentar compreender o porquê. Á noite escrevia e descrevia.

Certo dia, perto já do final das férias quando a minha pele escurecida facilitava a camuflagem na sombra, dei por mim deitado debaixo de uns arbustos mesmo em frente da paragem do 905, junto à passadeira que ligava o meu lado da rua ao bairro dos ciganos. Era um dos meus sítios preferidos, um dos primeiros que experimentei e me despertou o interesse para a “espionagem”, como então lhe chamava. Mas na verdade, não o visitava desde esse mesmo início, porque o considerava um tanto ou quanto perigoso. Os ciganos não iam gostar, pressupunha eu, de pessoas escondidas a observá-los. Mesmo que estas fossem crianças, coisa que eu, obviamente, já não era, nem queria ser.

Por isso, desta vez tinha tentado colocar-me um pouco de esguelha para o bairro, mais virado para a passadeira, a minha vista atravessando a paragem de autocarro. Ela era sempre um dos principais pontos de interesse e focos de não conformidades comportamentais, mas nesse dia a minha atenção foi momentaneamente desviada para a passadeira por uma cigana de formas opulentas que saía de casa apressada para fazer uma última compra no café deste lado da rua. Quase no exacto momento em que os seus seios e ancas entraram baloiçando no meu campo de visão, um pássaro preto desceu sobre a passadeira aproveitando a breve interrupção no trânsito. Era um pássaro pequeno, creio que um melro ou assim, mas como percebo tanto de pássaros agora como nessa altura, não posso garantir, nem interessa. Nesse sentido era, aliás, um pássaro perfeitamente vulgar, o que não era nada vulgar era o que ele estava a fazer.

Mal os longos e ondulantes cabelos da cigana deixaram a passadeira, o fluxo de carros resumiu o seu nervoso trajecto de fim de tarde. A esta hora a maioria das pessoas tenta apressadamente regressar a casa, fugir da loucura que lhes é imposta pelo mundo para a loucura que entendem porque lhes vem de dentro de casa. Seja como for, algo estava estranhamente diferente neste quadro todos os dias repintado: o raio do pássaro continuava na passadeira. Desviava-se, saltitando de um lado para o outro e evitando os carros que passavam, ora no sentido do shopping ora no sentido da escola. Sem nunca abrir as asas ou sair da passadeira, aguentou lá uns bons 5 minutos, e só levantou voo quando a mim me pareceu que a morte dele era certa, entalado entre o 905 e um camião de transporte de mercearias que acelerava sonoro desde a curva, avisando amigavelmente para que ninguém se atrevesse a atravessar agora.

Pela primeira vez, fui pra casa completamente hipnotizado e, tirando as rodas, nada me distinguia daqueles carros que regressavam também, a uma casa que não sabiam se era a deles, em piloto automático e com a mente vazia de tanto em que pensar.

No dia seguinte, voltei. Estava mais calmo e precisava de garantir que o que se tinha passado ontem tinha sido um sonho, e apenas isso. Mas passados poucos minutos de ter chegado e me ter posicionado, desta vez mesmo em frente da passadeira - que se danem os ciganos, o pássaro preto voltou a descer sobre ela, aproveitando desta vez a alegria de duas crianças que a atravessavam com uma bola nas mãos. A cena repetiu-se. E desta vez, o pássaro não só desafiava a morte como parecia ter uma leveza e uma graciosidade nos movimentos que me poderiam perfeitamente levar a descrever o que fazia como uma dança. Mas não o fiz, na altura não o fiz. Já tinha passado há muito a fase em que me era plausível os animais falarem e a escola já me tinha ensinado que um pássaro não podia ter, e por isso não tinha, uma consciência mais do que instintiva daquilo que fazia. Sempre tinha sido bom aluno e esta era a primeira vez que sentia que isso podia ser uma desvantagem.

A procura de explicação para este pássaro tornou-se assim numa obsessão.

Mal acordava, mal me vestia e mal comia, imediatamente me encaminhava para um dos esconderijos próximos da passadeira, e por lá ficava, o dia todo se preciso fosse, à espera do pássaro negro que dançava com a morte. E ele vinha. E ele dançava. E eu acabava a voltar pra casa ao final do dia, ainda mais confuso e perplexo do que quando tinha saído de manhã.

Na décima vez, mas também pode ter sido na vigésima porque a surrealidade destes acontecimentos dificultava a matemática dos dias, percebi e apercebi-me finalmente da razão para o estranho comportamento deste estranho pássaro.

Dessa vez, tinha decidido esconder-me num local diferente, e escolhi a montra do talho. O lado de dentro, claro está. De lá, podia observar toda a estrada, a paragem, a passadeira, o bairro dos ciganos, e até as árvores que dele irrompiam, oculto pelo reflexo da realidade no vidro da montra.

Após algum tempo de espera, maior do que habitualmente, os meus olhos treinados aperceberam-se de um movimento descendente fulminante, iniciado nas árvores e terminado na varanda do primeiro andar do Bloco C. Era ele.

Mas não descia, nem dançava. Ficou ali especado a olhar. A olhar de um lado para o outro, esperava. Tal como eu, parecia procurar algo. Foi então que percebi que me procurava a mim! Todo este tempo, todos este dias que passei a observar o pássaro para o compreender, ele estava a observar-me a mim. Compreendia-o agora.

A crueza da surpresa foi suficiente para me fazer soltar um pequeno guincho, a desculpa que o dono do talho estava à procura para me pôr de lá pra fora. Quando entrei ainda pensou que fosse comprar alguma coisa, mas entretanto já se tinha apercebido que eu não era um desses, ainda .

Apartir desse dia, fui substituindo a escrita que me ocupava as noites quentes pela masturbação, com a facilidade e a destreza de quem faz ambas com a mão direita.

O pássaro? Esse morreu.

 

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despesadiaria às 10:57
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