Terça-feira, 29 de Julho de 2014

 

V

 

- Eu gostei muito, mas não respondeste à pergunta. Onde queres chegar com isto?

 

No espaço familiar atrás da praça de touros do Campo Pequeno - outra vez, como numa segunda-feira qualquer; as semanas sucedem-se no enjoo melódico da caixa de música, a repetir os mesmos tons ad nauseam. A janela aberta deixa escapar um raio de luz nua, estrada cósmica de pequenos corpúsculos, cadáveres, restos de almas. Estou sentada numa das cadeiras azuis, a que chia mais. Dou graças aos pregos desconchavados. Disfarçam o ranger dos meus dentes e o barulho metálico das pulseiras que tapam os rastos brancos dos meus pulsos. Roçam umas nas outras ao sabor dos nervos, ecos da culpa eterna e do medo. Estas tardes são as novas madrugadas, esburacadas por novas agulhas brilhantes. Não sei se sou uma almofada de alfinetes, ou uma esponja, ou um balão cheio de hélio e desejo de escapar rumo às gradações azuladas do infinito.

- O que é que aconteceu à Michele?

Fito a ganga escura que me cobre as pernas. Num piscar de olhos, mergulho no sulco escuro que as separa, uma fossa estreita rumo ao centro da minha Terra.

 

A mente navega até ao laboratório de anatomia; tal é a nitidez do cenário transmutado que a recordação se confunde com uma experiência extracorpórea. Sento-me numa cadeira de madeira, a terceira da primeira fila de mesas da sala. Tenho um monte de folhas à minha frente e, em cima delas, uma moela de plástico em forma de jota: um estômago cor-de-rosa desmontado. Passo as mãos pelas pregas no interior da barriga do jota. Imitam a textura enrugada dos dedos esquecidos na água, mas são mais rijas. A professora encosta-se ao quadro branco, riscado com o desenho das regiões topográficas do abdómen. Oferece o olhar sobranceiro aos seus alunos, entretidos a explorar os diferentes órgãos do tubo digestivo, e pontualmente partilha os seus ensinamentos.

O peguitoneu é a maiog e mais complexa membgana segosa do cogpo. A forma como a professora engasga os erres é hilariante. Convém aos alunos a abstração do pogmenog. Uns têm mais sucesso que outros; eu concentro-me nos apontamentos, tomo nota desta e de outras informações, com os erres no devido lugar. Na pressa de registar cada sílaba, a grafite rasga a folha sem preceito. A peritonite é a infeção do peritoneu. Das minhas mãos solta-se a caligrafia descuidada, os emes são linhas distraídas, os ós e os ás não se fecham. Paro para sublinhar a frase - arte é descodificá-la mais tarde.

No fundo da sala, alguém pergunta quais são os sintomas de uma peritonite, como se estivéssemos na antecâmara da clínica e as causas nos importassem realmente. Não vamos ser médicos. Questões desta índole servem para matar o tempo, ou ouvir mais um pouco da dicção hilária da mulher. Ainda assim, preparo o calo do dedo médio para uma nova carga de palavras.

Rigidez abdominal e febre, escrevo. Tende a ocorrer após uma intervenção cirúrgica, acrescento, e logo deixo a lapiseira escorregar pelos dedos suados e tremidos.

Numa tontura ácida, sinto o coração perder-se nos pulmões hirtos, onde o ar se esconde, assustado. As ondas suaves da memória rebentam em murmúrios nas margens da consciência.  A moela esquecida à minha frente começa a expandir-se partindo do seu tamanho de punho fechado. Estica-se na horizontal e depois cresce em altura; muda de forma envolta numa neblina mística, como as do folclore celta. Num piscar de olhos, vejo a pequena Michele sentada à chinês na minha mesa.

Veste o pijama demasiado curto que lhe conheci, os seus tornozelos batem nas argolas do dossier verde. Sorri, o mesmo sorriso traquina que me saudou na noite em que nos vimos pela primeira vez. As pequenas mãozinhas agarram o lado direito do ventre e delas vai escorrendo um líquido vermelho. Não é sangue, é uma tinta lacada, um verniz rubro que escorre dos seus dedinhos inocentes para as minhas folhas, e daí para a mesa, para as minhas pernas, para o chão. E à medida que a poça de líquido cresce aos meus pés, a Michele vai-se desvanecendo no rasto espectral de uma história cujo final só agora, mais de dez anos depois, se desenha.

 

- A Michele morreu.

Os olhos da senhora doutora, hoje enfeitados com sombra verde, perfeitamente esfumada, saltam debaixo da franja de palha. Sabe que me perfumo de morte, todos os dias, antes de sair de casa, e o odor acre, uma podridão ténue e facilmente disfarçável - usando as pulseira barulhentas, por exemplo - mas que se mistura nas minhas moléculas odoríferas; os homens não sentem, os animais fogem de mim na rua.

- Os pontos devem ter rebentado.

Fito a parede à minha esquerda, murada rugosa, nua. Nela projeto um quadro de entranhas inflamadas, uma imagem grotesca. Chega a culpa, em novas vagas ardentes, a tão familiar culpa: deixei-me ficar deitada, petrificada pela ameaça de viver - e no fim, acabei por viver mesmo, protegida na natureza amedrontada e passiva.

 - É isso que dói?

Também, também. ■

(IIIIIIIV)

S. White

despesadiaria às 09:59
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