Domingo, 3 de Agosto de 2014

 

Num destes dias, expus-me a uma subtil embriaguez que dominou toda a minha tarde. Em rigor, nada fiz. Não que eu não quisesse mas, o corpo sujeitou-se a uma incapacidade de resposta a todos os movimentos do universo. Quando o telefone tocou para confirmar um compromisso agendado para umas horas depois, faltou-me coragem e escrúpulo. Na verdade, o braço demorou-se a chegar ao aparelho e a cabeça havia sido infectada pelo vírus do carrossel, girando sem interrupções, numa lentidão vertiginosa que nos conduz à resignação. Longe de qualquer consciência, e em suplício obstinado, como quem procura água num interminável deserto, a cabeça balançou, acabando suspensa junto ao peito, por breves segundos. Os olhos adormeceram. Não podendo descrever com precisão o que aconteceu no momento seguinte, apoderou-se de mim uma confiante sensação de conforto que triunfaria sobre todas as outras preocupações da humanidade. Talvez se chame prazer ao estado em que nos encontramos quando tudo o resto, simplesmente, desaparece e ficamos entregues ao nosso desfrute. Experimentei, porém, esta sensação muitas vezes mais sem que, para tal, tenha bebido uma única gota de vinho. Apercebo-me, agora, que o vinho é um dos mais perfeitos disfarces desse hedonismo involuntário que nos ataca como uma lança de amor, para nos estender nos prados da imortalidade, por um instante. Admitir que a preguiça é, então, uma das mais belas alienações naturais é, ainda, um dos grandes mitos da sociedade moderna. Qualquer homem assumiria mais depressa o seu estado ébrio do que uma preguiça crónica. O mundo prefere um bêbado a um preguiçoso. É preciso libertar a preguiça.

 

jorge c.

despesadiaria às 09:03
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