Terça-feira, 5 de Agosto de 2014

 

Uma fábula para variar

 

No microcosmos dos prédios de habitação encontram-se muitas vezes soluções simples e prácticas para problemas colectivos. Estas soluções dispensam alegremente teorias económicas e/ou sociais que as sustentem, pois os problemas a que se referem são muito mais complicados de resolver e até mesmo equacionar, quando olhados do plano teoricamente mais elevado da macroeconomia ou da sociologia.

Vem isto razoavelmente a propósito de um acordo que fiz com a minha vizinha do andar de baixo, após a última reunião do condomínio. A senhora, vítima de graves infortúnios financeiros e de um marido fugido, assumiu compromissos profissionais que a mantêm longe de casa, quase toda a noite. E eu, que também sofro de necessidades prementes das mais variadas, aceitei tomar-lhe conta da gata a troco de poder estacionar o meu carro na garagem dela, há hora que eu quiser e desde que não esteja já ocupada.

Da primeira vez que fiquei com a bichana em casa, e devido a uma daquelas falhas de comunicação tão comuns quanto desconcertantes entre seres da mesma espécie mas de géneros diferentes, não sabia ainda o seu nome. Como isso acaba por ser uma parte importante do relacionamento entre dois seres que coabitam no mesmo espaço, decidi chamar-lhe Christie, o que à altura me pareceu ser-lhe agradável.

Causa ou consequência, a gata Christie era um animal extremamente talentoso e dado a solucionar mistérios do quotidiano. Não foram uma, nem duas as vezes que fui encontrar meias desaparecidas junto à caixa com cobertores que lhe arranjei para dormir. E uma vez, chegou mesmo a vir ter comigo ao sofá e a pousar-me uma meia junto aos pés que, asseguro-vos nem tinha consciência de estar perdida.

A gata Christie conseguia tudo isto apesar de ser practicamente cega, é preciso notar. O seus longos bigodes e a suas orelhas pontiagudas, em conjunto com o faro apurado do seu nariz rosado, chegavam e sobravam-lhe para pintar um belo quadro mental da Realidade que a rodeava. E esse quadro podia ser mais correcto que o meu, em muitos aspectos. Correcto ou completo, não sei bem dizer e muito provavelmente ambas. Um ser que detecta vibrações infinitesimais no chão e no ar, ou que consegue cheirar que eu lhe comprei comida antes mesmo de eu entrar em casa, tem de ter uma percepção da realidade muito melhor que a de um “junkie” no desemprego como eu. Neste caso em particular, a merda que partilhamos pode ser a mesma, mas o cheiro é de certeza completamente diferente!

A Realidade, essa cabra. Quando abraçam outro ser vivo, quando os vossos corações batem em sintonia, as vossas existências a palpitar em ressonância, sabiam que, na Realidade, os vossos atómos e os dele não se tocam sequer?

Ontem, enquanto ouvia alguém na televisão a falar sobre bancos bons e bancos maus, pensei pra mim mesmo que o que precisávamos neste momento era de um banco para além do Bem e do Mal. "Ó Nietzsche anda cá baixo ver ietzsch", gritei! Acto contínuo, a gata Christie saltou-me para o colo e, após um curto periodo de imobilidade destinado certamente a deixar-me refazer do susto, procedeu a enroscar-se nela própria como habitualmente, num abraço quente, peludo e tricolor, como só as gatas sabem e podem.

Afaguei-a e reparei que me olhava nos olhos, ou melhor dito - mais real, que apontava aquelas duas escotilhas verdes e inuteis genericamente na minha direcção. Para minha surpresa e manifesto  incómodo, começou a falar por cima do senhor da TV. Falou-me de como somos todos Um, uma super-consciência que se experimenta a si própria subjectivamente em cada ser vivo, de como a vida não passa de uma viagem, que é divertida, barulhenta e vistosa - ao princípio, e que mesmo depois, quando já não o é, não preciso de ter medo porque é só uma viagem. Falou-me do passado e do futuro, e de uma Realidade com a leveza da inconsciência, falou-me dos sentidos e do instinto, da maldição de Adão. Falou-me longamente, pela noite dentro, de tudo - e aí incluo o nada, enquanto eu lhe lambia os pelos com as minhas mãos suadas, tal qual a mãe lhe fazia quando era pequena.

Quando começou a falar-me da minha escrita porém, enxotei-a e levantei-me para ir buscar uma cerveja ao frigorífico. Se ia ouvir críticas literárias de uma gata, o mínimo que podia fazer era estar bêbado. Mas quando voltei à sala já ela se tinha escondido algures, orgulhosa, ressabiada. Foi pena, quando acordei, a única coisa que me lembrava (que tinha percebido?) de tudo o que ela me tinha dito era um simples e prolongado "miaaaauuu".

 

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despesadiaria às 08:04
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