Sábado, 26 de Abril de 2014

 

O cigano é uma espécie rara de homem comum. Da Califórnia até a Pérsia. Um exército de cauda cortada. Fátuo como todos os declives. Comer, beber, roncar, e mais nada. Enfim. Vou meter no braço uma tatuagem deste acampamento. Deve ter uns 3 km. Estou para o pernoite. Palha não falta. Mas fui avisado. A polícia vai dar uma batida. Entre o meio-dia e a meia-noite. Tudo bem. Nenhum problema. Estou familiarizado com a polícia, de todos os países. O cigano mais moço continua a enfiar a carne num espeto de pau. As crianças dançam debaixo de um varal de roupas coloridas. Tenho nos bolsos tantos produtos farmacêuticos para lhes vender. Mas com a polícia. Eu achava melhor afogá-los em algum buraco. Mesmo sem chuva as crateras num acampamento estão sempre a transbordar. Inundadas por um lodo, às vezes violáceo, às vezes esmerealdeado. Depois daquela caravana de poças marinadas de peles mortas, ao lado de um camião, um remoinho de saias. Putas acabadinhas de chegar da Estónia, Croácia, Valáquia, Rumélia, de todos os chiqueiros do leste. Uma delas, em pé, em cima de um tronco derrubado, qualquer coisa entre os 9 e 13 anos, dança com a saia erguida. Os rapazes em volta ciscam, batem os pés, as mãos, atiram tremoços e castanhas, devoram-na, com olhares de megatoneladas, numa algaravia de palmas e buzinas. Ela ri, desdentadinha e gesticulosa. O cabelo grosso, castanho, metade solto, metade numa trança. O velho que atirou azeite ao fogo, se aproxima. Dois facalhões com cabo de madrepérola à cintura e conchas de ouro a cascatear do pescoço. Deve estar já no seu segundo bilião. Ela desce da árvore. Os gajos ficam quietos. É preciso enfiar o orgasmo de volta pelo caralho. Eu? Bom. Subo a azinhaga entre valados cheios de capacetes de espinhos até à tampa. As mãos espalmadas diante dos olhos, para não nos arrancarem tudo. Pálpebras, lábios, as pequenas varizes das órbitas, os ovos oculares aos pedaços. Depois de um cordão alto de capim, a música tinha-se evaporado. É deitar o ouvido ao chão e auscultar os corações de mil gatos. Cavalos, galinhas, crocodilos, carroças, feitas de cortinas e celofane, espalhadas pelo campo. Lá em cima, o cigano mais velho é uma geena de mofos, tem a roupa acolchoada com jornais, quilos de papéis debaixo do sovaco, entre as coxas, culotes de revistas. Está parado a firme no caminho. Tentei desviar. Tentei mais uma vez. Mais duas vezes. "Onde será a Europa daqui trinta anos?", ele pergunta. "No mesmo sítio?", arrisco. Ele ri. Dois caninos de ouro e mais nada. A boca vazia. Mas vazia num contexto mais amplo e menos disponível. Um vazio torcido, franzido, descendente. Mais tarde, ouço um ruído através do papelão. Alguém à nossa porta. Não é imaginação. A polícia? Àquela hora? Sacudo a palha, levanto-me, empurro a porta de zinco. Três degraus abaixo, uma vozinha de miúda cochicha. Diz logo do que se trata. 5 euros o broche. Quero? Não. Melhor deixar as brincadeiras para depois. Volto ao feno, de gatinhas. Posso ver o céu pelos rasgões da lona. Viro para a direita. Há um espelho ovóide encostado à parede. Eu devia aparecer ali para mim. Mas não. É como se tivessem posto outro no lugar do meu reflexo.

 

Peor

despesadiaria às 14:42
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