Quarta-feira, 6 de Agosto de 2014

 

Wanderlust

 

Passam vinte minutos das vinte horas do dia seis de Agosto de dois mil e catorze. Estás em casa. Vais escrever um texto para o blogue Despesa Diária. Foste convidado.

 

Vais extinguir todas as fontes sonoras que te possam distrair, incluindo o já crónico ranger da portada que àquela hora costumas manter aberta porque, dizem, “há que deixar entrar o ar.” Não vais querer que a etiqueta da camisola te volte a incomodar, como o fez durante o dia. Vais trocar de camisola. Vais sentar-te à mesa, ajustar o ângulo descrito pelo braço e o antebraço de modo a que este não acabe vincado na aresta da mesa e de modo a que as tuas mãos ameacem o teclado de uma forma que consideres adequada. Não vais querer sentir o teu corpo, ou melhor, vais querer sentir que o teu corpo se vai limitar a cumprir a função para o qual foi convocado. Nada mais.

 

Vais pensar num tema que te permita expor uma ideia. Precisarás de um tema que, por sua vez, produzirá uma ideia. Vais sentir que nada te ocorre para, de seguida, sentir que te ocorrem demasiados assuntos que farão o desfavor de alavancar uma amálgama de começos na tua cabeça. “É estafado dizer-se que o conflito israelo-palestiniano…”. O primeiro. “Há um novo banco no bairro…”. O segundo. “Há que voltar aos thick ethical concepts de que falava Williams…”. O terceiro. Vais sentir-te cansado. Vais sentir que estás farto de «expor ideias». Vais esticar os braços e olhar para o tecto. Vais lembrar-te de um longínquo texto do Vila-Matas e de uma expressão que jamais esqueceste: a atracção pelo nada. Vais fazer a ponte com o escrivão de Melville.

 

Vais levantar-te da cadeira. Vais sentir que tens o antebraço marcado com um vinco e que a comichão na base do pescoço não passou. Vais sentir calor. Vais voltar a abrir a portada. Vais sentir o vento e, com ele, uma aflitiva vontade de sair.

 

Estás na rua. Vais começar a andar sem saber para onde. Para trás ficará a tua casa. A tua mesa, a tua cadeira, o ranger da portada. Ou talvez não, segundo um bispo de Cloyne. Apercebes-te de que estás sem óculos. À tua frente: um borrão policromático já afectado pelo cair da noite. Vais continuar a caminhar. Aceleras o passo. O suficiente para sentires que a tua pulsação aumentou. Apenas isso. Pequenas gotículas de suor formar-se-ão na tua testa.

 

Passada uma hora, vais sentir as mãos ligeiramente entumecidas. Mais à frente, vais perceber que está muito perto da praia. Vais querer descer a rampa e pisar a areia. Vais fazê-lo com uma determinação pouco usual. Vais perceber que a noite se instalou, o que te vai parecer reconfortante.

 

Vais deitar-te na areia. Vais mergulhar as mãos na areia. Vais observar o céu. Vais pensar no que Voltaire dizia: olhar o céu à noite é a prova da existência de Deus.

 

Vais, finalmente, dormir.

 

MacGuffin

despesadiaria às 20:35
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