Sábado, 9 de Agosto de 2014

 

Aos dezasseis anos já tinha lugar marcado nas jams do Hot Clube na Praça da Alegria. Pensar-se-ia que só a irresponsabilidade da arrogância juvenil levaria um rapaz e o seu trompete a subirem a um palco com homens que ouviram mais, tocaram mais, conheciam a ratice e armadilhas uns dos outros, mas só quem não conhecesse a hostilidade do público de uma jam session neste ou em qualquer lugar. Ninguém era assim tão maluco. Disseram-se outras coisas. Por exemplo, que subiu a palco quando Dexter Gordon apareceu inesperadamente no Hot, e que o seu extático alright, man! no final do solo do miúdo em All the Things You Are, foi o mote para um dos mais estrondosos aplausos que se ouviram naquelas mesas. Ninguém duvida que se não foi verdade podia ter sido.

 

Apesar de ser conhecido por uma memória eidética mesmo para os mais obscuros temas do cancioneiro americano (era frequente vê-lo sem dificuldade a indicar discretamente ao pianista a progressão harmónica de um standard que aparentemente não era tão standard assim), e de uma invulgar inventividade para os temas mais habituais, desenvolveu uma obsessão pelo St. Louis Blues. Passou a aguardar o tema todas as noites com ansiedade fetichista e ouviu a primeira vaia da sua vida por ter solado durante dezoito choruses por mais de dez minutos. Quando na noite seguinte sugeriu aos músicos abrir com o St.Louis Blues, os impropérios do pianista provocaram-lhe o único ataque de ira que alguém lhe viu, e foi a responder-lhe à letra que subiu pela ultima vez as escadas da cave dali para fora.  Ainda não tinha vinte anos.

 

A sua vida profissional não passou pelo jazz nem pela música. Chegou a jogar hóquei em patins duas épocas, experimentou empregos em estaleiros e bares de hotel, nada de especialmente invulgar. Acabou vendedor - um bom vendedor - de ventoinhas, e mais tarde de aparelhos de ar condicionado, quando a firma diversificou.

 

Mas a obsessão pelo St. Louis Blues não amainou. Aos amigos que viajavam pedia para trazerem discos com gravações que ainda não tivesse, o que se foi tornando cada vez mais difícil: versões da Bessie Smith, tinha vinte e três, no total eram mais de quatrocentos álbuns. Entusiasmou-se com as versões de alguns dos novos músicos que iam aparecendo como Hancock ou Hubbard, e aborreceu-se com outras como a de Marsalis. Não recusava nenhuma, mesmo pseudo-bossa-novas ou tangos mais ou menos bem intencionados. O melhor que podiam fazer-lhe era trazer gravações em pequenos clubes de músicos locais.

 

Em casa, quase todas as horas eram usadas para tocar variações do tema, com método doentio, em todos os tons. Se ficava medianamente satisfeito com um solo, repetia-o e gravava-o. Repetia-o com notável precisão: as mesmas notas, com o mesmo ataque e duração. Imaginava o que seria a versão lírica de Chet Baker, mimetizava o timbre de Miles Davis, ou as possiblidades da abrangência de Clifford Brown. Procurava variações para os curtos solos nos compassos mudos das versões cantadas. Enchia o espaço vazio entre acordes, acrescentou-lhes nonas e décimas primeiras, ou simplificava-o até uma regressão incompreensível, modal, quase só escala sem acordes.

 

A situação não melhorou com a reforma, nem nos anos seguintes. Deixou de ouvir, deixou até de tocar, passou apenas a encher com caligrafia cada vez mais descuidada partituras com versões da harmonia ou melodia do St. Louis Blues, escreveu solos, improvisou no ritmo e no tempo, até na forma. Ninguém poderia saber que era ainda o mesmo tema.


Após a sua morte, dois dos seus velhos camaradas do Hot Clube foram arrumar-lhe a casa. Encontraram as paredes forradas a cassetes, com milhares de gravações, um pequeno piano vertical na cozinha e o seu velho trompete no lava-loiça de pedra. Pelo chão e por todo o lado, partituras escritas à mão, rasuradas, algumas rasgadas, outras guardadas com cuidado. Num quadro negro, tinha escrito a tinta de parede I - IV - V e entre estes, a giz, praticamente todas as possibilidades qualquer que fosse a dissonância. Quiseram muito que houvesse  entre tanta documentação algum apontamento genial, mas nenhum dos dois estava preparado para dissecar um espólio tão triste.

 

Gouveia

despesadiaria às 09:00
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