Terça-feira, 12 de Agosto de 2014

 

Tenho sempre esperança que aconteça alguma coisa. Não me lembro, aliás, de ficar tanto tempo num lugar à espera de um acontecimento espontâneo e invulgar. Abdiquei da praia, dos passeios ao sábado por Lisboa, de alguns amigos e de outros mundos. Tenho viajado da janela para partes da memória distraindo-me, assim, do tédio da espera. Lembrei-me de pessoas e lugares que há muito se haviam desvanecido, como inscrições na areia. Há, contudo, um conjunto de eventos que persistem como uma dor muscular provocada por um trauma. Quando dois universos que julgávamos distantes se cruzam diante de nós, o choque provoca um impacto nas formas mais racionais da crença. É a este fenómeno que chamamos coincidência - dois ou mais momentos improváveis que coincidem no tempo e no espaço. É o cosmos a funcionar, dir-se-ia. O meu cepticismo sofreria, então, um golpe tremendo quando, certa vez, ouvi um nome familiar descontextualizado. Por causa do apelido invulgar, alguém terá trocado o nome de um amigo, tornando o novo nome numa alcunha. Curioso por conhecer a origem da confusão, questionei-o sobre o seu autor. Apesar da fantasia que uma alcunha impõe, revelou-me que teria sido o pai de um amigo comum, por engano, que lho atribuíra. Nesse momento, julgo ter experimentado o tal abanão cósmico. Ora, o cavalheiro em causa não era, senão, um amigo do meu pai que, por circunstâncias da vida, terá conhecido um outro amigo da minha família na cidade onde nasci, umas décadas antes. O nome do meu conterrâneo e a sua generosidade e simpatia tê-lo-ão marcado de tal modo que, ao ouvir um nome pouco comum, associou a um outro bastante semelhante mas que, para si, soava a algo bem mais familiar. A minha descoberta acabou por não gerar um grande espanto aos demais. Encontrei-me, então, no meio de uma coincidência exclusiva que reunia dois mundos em mim. O meu entusiasmo foi tomado como loucura. Aprendi, deste modo, a guardar debaixo da pele sensações que apenas eu pudesse realizar. Porém, como situações semelhantes não ocorrem todos os dias, passaram-se uns anos até ao dia em que eu e um tal de João Gaspar, depois de um contacto para relação literária conjunta, sem compromisso e com termo, concluímos que as nossas vidas se haviam cruzado umas décadas antes de estarmos ligados por modems diferentes, naquela estranha noite de julho. Nunca mais seríamos os mesmos. A vida de ambos daria muito mais voltas e eu regressaria à terra natal à procura de um passado próspero. Foi aqui que conheci uma mulher com quem estabeleci, em pouco tempo, uma relação de amizade e confiança. Num dos seus desabafos, falou-me do pai do seu filho. Quando me explicou de quem se tratava, percebi que aquele homem ter-se-ia intrometido na vida de um outro que, à época, me confessou a traição sofrida pela sua companheira de anos com um sujeito de fora. Não terá sido há muitos dias que me questionei pela primeira vez se um conjunto significativo de coincidências não corresponderão a uma experiência de quase-morte. Vistas a esta distância, as coincidências nas quais me encontrei envolvido têm uma beleza rara, como uma luz que atravessa o tempo para nos conciliar com o passado e com o presente.

 

jorge c.

despesadiaria às 09:50
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