Segunda-feira, 11 de Agosto de 2014

 

(Memorabilia)

 

Junto do talho do Sr. Franclim funcionava, em tempos, uma taberna. Simplesmente conhecida por “Tia Júlia”, tratava-se de um estabelecimento modesto, sem tabuletas ou outros adereços indicativos, com uma porta para a rua, e outra, de ligação, para o talho do Sr. Franclim. Lembro-me de, em miúdo, acompanhar a minha mãe até ao talho, e admirar-me com os portentosos cepos de madeira onde se fazia o corte, e os não menos admiráveis golpes de faca e machado perpetrados pelo Sr. Franclim às pobres carcaças. Surpreendia-me com o facto de uma pessoa tão delicada e simpática ser capaz de tamanho manejo de cutelos. Na verdade, eram raras as ocasiões que saísse do talho sem um gelado de dez ou quinze escudos oferecido pelo Sr. Franclim. Nunca o vi zangado ou aborrecido, e mesmo perante as brincadeiras do neto com as cabeças dos porcos (com as quais procurava assustar os clientes da Tia Júlia) era incapaz de proferir mais do que um “ai este rapaz!, que maroto”. O mesmo não se diga da mulher, cuja largueza de ancas era proporcional à malvadez com que tratava tudo e todos. Ainda hoje creio que a farta cabeleira branca do Sr. Franclim se devia a tão medonha mulher. Porém, a imagem mental que mais recordo, sempre que penso no talho do Sr. Franclim, é o das travessas cheias de farinhotas frescas a passarem para a Tia Júlia. Naquele momento o talho ficava inundado de um cheiro situado na fronteira entre o nauseabundo e o agradável, um odor tão forte e característico cujos efeitos perduravam por várias horas no meu olfacto.

 

Há dias, enquanto petiscava uma dobrada com uns amigos, à hora do lanche, no mesmo local onde outrora funcionou a Tia Júlia (hoje continua a ser conhecido por “Tia Júlia”, apesar de há muito falecida, e ser agora gerido pela Dona Alice), todo este quadro mental se compôs novamente (quem sabe se influenciado pelas várias canecas de vinho já consumidas), no exacto momento em que uma travessa cheia de farinhotas frescas passou pela nossa mesa. Fui incapaz de expressar qualquer palavra, e não sei se os meus companheiros de taina terão notado uma lágrima ou outra no canto do olho. Já não mais existe o talho do Sr. Franclim, já não mais existe o Sr. Franclim, e já não mais existem gelados a quinze escudos.

 

EVN

despesadiaria às 13:25
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