Quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

 

Caderno listrado - carretéis, 16

 

O branco solta-se do céu e desce. Faz desaparecer à margem centenas de eucaliptos. Subo o zíper da jaqueta e inclino a cabeça. Vejo brilhar o céu embaixo da água, como uma bolsa de pus. Cada bolha que se choca ao casco é a terra inteira, redonda e sobrecarregada de homens. Viro a cabeça. Ao longo da amurada, a bombordo para os homens e a estibordo para as mulheres, as barracas de banho. O cheiro é forte. E não depende de nenhum superlativo para ser qualificado com exactidão. Peixe e mijo. Ela veio, a suave decomposição de uma aresta em arco. Tenho os cadarços vocais quase a dizer que o octógono é um outro estado do círculo. No fundo, posso sentir (e é uma sensação puramente geométrica): os dois comprimidos de fluoxetina a boiar no intestino já falam por si e falam alto. Agora sou a garrafa que atirei ao rio pela manhã; sinto o ar entrar pelo gargalo. E em um passado bem próximo, ontem, talvez, ou daqui a pouco, poderemos todos voltar a afirmar que se a lua orienta os barcos, é sem saber. Por enquanto, o nevoeiro espalha-se, suga uma vaca, ao fundo. Próximo às pedras, a água por cima é um cacau a ferver. Não a ouvimos. Atrás, um diadema de folhas avulsas e cheias de dobras. Pronto, vislumbra-se uma cabala, é a nossa sentença de morte - e a terra, se não se descobre, também não se cobre mais. Antes resvala na morna incandescência dessa úvula. Para lá a cidade espeta, morde, arranha, grita, em uma palavra, moderniza-se. As casas, para decepcionarem, basta que se mostrem. Verdes, azuis, rosa. Empurram-se, cobertas de anacronismos, dissolvidas pela metade em generalidades que parecem soletradas. A vida instalada sobre um conjunto infinito de estacas jamais é elíptica. Ela anda. Encadeia. Temos a impressão de estar a "ouvir" com os olhos. Os andares, empilhados três a três. Tudo está sob redoma. Rasura os sentidos. E entre dois regos pontilhados de habitações complicadas, nem dentro nem fora da água, o rio é um dormitório de cores e essas são uma mancha de topázio queimado, e se afastam sem se mover. Vão para o fundo de uma memória que as está esquecendo. Essa constante defasagem. A evocar em duas ordens sensíveis um mesmo braço de rio (na medida em que ele, e os outros em seu rasto, recusam-se a aceitar servir-nos em parte de caução e em parte de passatempo). Assim a espécie humana - ou, quem sabe, o Processo Histórico - se retrai. Volta a ser um laço de enforcado, amarrado à Lavallière. A única Venezuela que soube encontrar.

 

Peor

despesadiaria às 09:02
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