Sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

 

Voo rasante

 

Por várias vezes vezes várias tias avisado, não se podia dizer que não estivesse consciente desse perigo desde tenra idade. “É o outro lado da moeda da beleza”, diziam-lhe. Naturalmente rebelde e preguiçoso, não deixava de prestar atenção aos avisos e conselhos dos mais velhos mas ao mesmo tempo pensava “Que posso eu fazer? Tudo o que começa tem um fim e já não fui eu que decidi este começo”. Para agravar a situação, sempre tinha desprezado essa característica tão louvada precisamente por o ser, embora tivesse noção de que não estava na melhor posição para a avaliar. “É, no fundo, apenas uma questão cultural”, julgava ele.

Até que certa manhã, uma névoa clara pairava insistentemente sobre o azul dos seus olhos. Uma névoa que se foi tornando cada vez mais difusa e impenetrável com o passar dos dias. Consultou um médico, estava a ficar cego. O azul outrora atlântico, de tão profundo, intenso e cheio de vida, estava agora demasiado ralo para o brilho ofuscante deste néon publicitário a que chamamos Mundo. Foi tudo o que conseguiu perceber da caligrafia do médico, se ao menos os oftalmologistas…

No inicio, fez como as crianças quando descobrem que o que é bom dura pouco, e tentou poupá-los. Por isso, dormia horas imensas, eternidades, ainda mais do que quando estava a trabalhar. Mas cedo foi forçado a abandonar esta solução, pois os outros órgãos reclamavam o seu direito a funcionar e a viver, ameaçando-o de morte.

Voltou à receita médica com novo fulgor de decifração e lá percebeu que seria necessário sacrificar a imagem que os outros têm de nós pela imagem que nós queremos, e precisamos de, ter deles. Foi comprar uns óculos e, tinha de admitir, era tudo muito mais prático. 

Mas a névoa permanecia, e o medo também. A sua vista começava a assemelhar-se àquelas senhoras idosas que se sentam o dia todo à janela, observando a rua. Algo se interpõem entre elas e a rua, tal como ela é. Às vezes, é a mesma rua onde viveram toda a vida, e junto às cortinas brancas da varanda da sala ou do quarto, esforçam-se por tentar perceber o que lhe está a acontecer agora, levantando-se e sentando-se na cadeira como quem semicerra os olhos para ver melhor. De um lado e de outro da rua, estas senhoras vêem-se umas às outras por detrás dos vidros mas não recordam as histórias partilhadas da juventude, já não se reconhecem. “Vestem as suas melhores roupas neste ritual diário, por respeito pelos mortos, por respeito ao Passado”, pensou. “Mas eu não sou velho e tudo o que preciso é de um novo foco”, disse. “Um novo começo, desta vez decidido por mim, e lá vou eu.”

E saiu de casa para ir comprar outro par de óculos. “Um mais chique”, disse ele.

 

rwtg

despesadiaria às 13:11
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