Sábado, 16 de Agosto de 2014

 

O gordo

 

Eram as férias grandes. Tínhamos por hábito acordar cedo, meio excitados com o caderno de actividades que o conclave ditava no dia anterior. Após o pequeno-almoço, tomado a correr, o ponto de encontro era o habitual: à sombra do álamo que pontuava a placa triangular ao topo da Rua de Santo António. Todos sabíamos que queríamos estar ali o quanto antes, embora, invariavelmente, o gordo fosse o primeiro a chegar, com as suas jardineiras Lois e as suas sapatilhas Adidas, último modelo. O gordo era rico. Sempre que estreava um par de sapatilhas, o resto da malta competia para ver quem primeiro conseguia conspurcar a imaculada e germânica brancura. De início, as desengonçadas tentativas de fuga do gordo conferiam ao exercício um pico de comicidade muito apreciado. Com o passar do tempo, veio a estabelecer-se um acordo tácito que facilitava a fatal pisadela, embora lhe retirasse alguma da graça: “tratem lá do assunto para podermos seguir em frente”, dizia-nos o olhar do gordo.

 

O nosso gordo era em tudo diferente do gordo da avenida, também conhecido como “a besta”. Desde logo, a fisionomia: a camada adiposa do gordo da avenida era firme, conferindo-lhe um aspecto de gladiador. Gozava de um mau feitio descontrolado, apenas comparável com o estúpido do rafeiro do professor Velez, cuja apetência para morder elementos autopropulsados de forma aleatória (sobretudo pessoas) era já lendária. Ninguém ousava desafiar pessoalmente o gordo da avenida, muito menos contestar o controlo territorial que o mesmo exercia na sua coutada, a oeste. Além de que, dizia-se, o pai do gordo da avenida era má rês. Não senhor: o nosso gordo era uma paz de alma, um saco de pancada, o alvo preferencial da “dinâmica de grupo”.

 

No grupo, para além do gordo, mas por razões inversas, destacava-se o Marcelo. Era o mais destemido e o tipo com maior sucesso entre as raparigas. O único, aliás, com algum sucesso. Um episódio passado envolvendo bombas de carnaval, que quase o tinha deixado sem os dedos de uma mão, havia revelado um estoicismo que a todos, sem excepção, tinha espantado. O “mártir das bombas.” De olhos verdes e cabelo castanho controladamente despenteado, o Marcelo era um tipo com pinta. Se não era o líder, andava lá perto.

 

Naquela manhã, arrancámos na direcção da mítica “ladeira da Boa Morte.” Duas Órbita Ginga, uma Esmaltina Fúria (caixa central de três velocidades), uma Confersil com guiador de corrida e uma Vilar com uns alarves pneus Turino 500, compunham o ramalhete. Não havia uma única nuvem pendurada no horizonte. Ninguém levou comida: todos sabíamos que iriamos debicar as árvores de fruto da quinta do velho que vendia cal, odiado por todos sem apelo nem agravo. Regra geral, o gordo era enviado em missão de reconhecimento, não tivesse o velho deixado os cães à solta. Se o gordo gritasse, era mau sinal. Mas naquela manhã não houve gritos e a colheita foi farta.

 

Passámos a ladeira com o objectivo de explorar a ribeira que, mais à frente, confluía com uma azinhaga que já havíamos percorrido, mas não tão longe. O sol e o céu estavam brancos de calor, o que nos levou a procurar a sombra de uma pequena ponte, que estabelecia a ligação entre as duas margens num ponto em que o leito alargava consideravelmente. Deixámos as bicicletas ao sol, lá em cima. Como sempre, o gordo estava em muito mau estado: suava abundantemente e parecia não conseguir recuperar o fôlego. A malta achava divertida, aquela manifestação de exaustão carmim. O Marcelo tinha, entretanto, passado para a outra margem. Passado uns minutos, chamou-nos. Pelo tom, percebemos de imediato que havia encontrado alguma coisa. Encontrava-se agachado, junto a uma espécie de taleigo. Alguém, lá de cima, tinha atirado aquilo. O Marcelo desapertou o cordel e abriu o saco. Do seu interior avistaram-se seis cachorros, recém-nascidos, mortos. Ficámos sem palavras. Nunca, ninguém, tinha visto aquilo. Passaram-se minutos sem que alguém fizesse alguma coisa. Ainda abaixado, o Marcelo começou a retirar os cachorros, um a um. Estranhamente, o gordo quebrou o silêncio: “Pára com isso”. Como habitualmente, ninguém lhe ligou. O Marcelo começou a mexer num dos cachorros, como que a examiná-lo. “Não ouviste? Pára com isso”, repetiu o gordo. O Marcelo continuou, erguendo um dos cachorros no ar. Sorrindo. O gordo precipitou-se sobre ele, empurrando-o e fazendo-o cair. “Não vês que estão mortos!?”. O Marcelo levantou-se com o intuito de o enfrentar. Mas naquele dia, naquela hora e naquele minuto, pela primeira vez o gordo não recuou. Não baixou a cabeça. Não se desviou um milímetro. Alguma coisa tinha acabado de acontecer. O habitual desequilíbrio de forças tinha sido posto em causa. Os olhos do gordo estavam rasos de lágrimas. Todos se aperceberam da enorme carga emocional e da tensão que aquele corpo parecia estar a conter. Algo de muito forte marcou aquele instante, algo que, até hoje, nunca soubemos explicar e sobre o qual não voltámos a falar. Duas grossas lágrimas percorreram rapidamente a cara do gordo, mas a expressão não indicava choro. Apenas determinação. Ao fim de uns segundos, que pareceram uma eternidade, o Marcelo recuou. O gordo afastou-se dois metros e ajoelhou-se. Começou a abrir um buraco com as suas próprias mãos. Ninguém pensou em ajudar o gordo porque ninguém ousou fazê-lo. De seguida, enterrou, um a um, os cachorros. Nesse dia, e por sua escolha, o gordo regressou sozinho a casa, primeiro do que todos nós.

 

Durante vários dias, não o vimos na rua. Pensámos que tinha adoecido. Ou viajado. Mas não: avistámo-lo ao quarto dia, na bicicleta. Aparentemente estava bem. Mas o gordo tinha morrido.

 

MacGuffin

despesadiaria às 23:23
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