Domingo, 17 de Agosto de 2014

 

A nogueira centenária e o Cotovelo: notas sobre duas memórias do Oeste

 

A nogueira centenária

 

A ossada daquela instituição familiar, espinhaço sólido e orgulhoso, a corda de memória ligando o passado de cor e vida ao presente nublado da velhice, fazia-se representar pela nobre nogueira centenária; a nogueira que sobreviveu a mais de um século de guerras, revoluções e beijos roubados entre as suas folhas, que superou o bombear vital do homem que a plantou, dos filhos que a herdaram, dos netos que a esqueceram e dos bisnetos que trepavam pelos seus ramos compridos e robustos: sem maleita ou moléstia, a árvore caminhava por sucessivos pretéritos, resoluta na missão de chegar sempre ao presente seguinte. Sob a copa daquele vulto atarracado descansavam os rafeiros do meu avô, uns animaizinhos nervosos treinados para rastrear lebres, prontos a mostrar as gengivas sempre que alguém se aproximava do portentoso tronco, o lavabo da natureza, a murada que os protegia dos elementos, a fiel amiga na noite escura.

Histórias do passado;  hoje, para evitar perder os detalhes daquele assombro vegetal, pego no carro e faço-lhe uma visita. Entidade imutável, esta velha juglandácea, que vai testemunhando o lento definhar das casas que viu erguer: uma adega seca, um estábulo nu de vida, casas de arrumos apinhadas de charruas ferrugentas e outros utensílios mortos. O tempo passa em vagas impiedosas, arrastando consigo os destroços dos meus antepassados,  mas a nogueira sobrevive como um cinto imperioso, contendo este globo achatado, assoberbado de vida e de mudança. Fortes raízes celulóticas, cheias de nós e cicatrizes, irrompem da sua sombra protetora espraiando-se em redor, como monstruosas caudas de quimeras, quebrando o alcatrão da estrada e desalinhando a direção das viaturas mais distraídas. Do tronco gordo e nodoso cujo diâmetro escapa aos meus braços, partem ramos vastos, braços escuros onde brotam folhas empoeiradas e frutos ovalados, primeiro guardados por mesocarpos verdoengos e mais tarde nus, beges, riscados pela sombra das suas próprias reentrâncias desidratadas.

Aquelas nozes enchiam os sacos do pão das crianças que tocassem à porta dos meus avós nas manhãs de Finados e faziam rebentar os bolsos dos meus vestidos durante o resto do ano. Quando o outono espreitava, ajudava a minha mãe a empurrar uma pesada saca de sarapilheira cheia de nozes para dentro do porta-bagagens. No esforço, algumas escapavam da saca e atingiam o alcatrão com pequenos baques ocos; rolavam em trajetórias excêntricas para o meio da estrada e eram pisadas pelas rodas colossais dos camiões - sobravam apenas os seus rastos, macerados na escuridão do asfalto. Pouco importavam, as casquinhas esmigalhadas: tantas, tantas nozes lhes sobreviviam, bebendo o sol nas tampas de bidões metálicos, cheios de água para regar as couves, ou estendidas em tabuleiros, sobre a tijoleira alaranjada dos alpendres de minha casa.

Depois, o meu avô morreu. A nogueira pouco se importou.

 

S. White

despesadiaria às 11:33
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