Terça-feira, 19 de Agosto de 2014

 

Baum, noir.

 

A cidade acorda lentamente, vista da janela do meu escritório. Só as torres ao fundo reflectem o Sol que se levanta. Quiosques fechados com os jornais no chão apertados com guita, cobertos por plástico. Parou finalmente de chover. Sacos de lixo pretos amontoados às portas. Sento-me com dificuldade e rodo no telefone o número da minha secretária Jennifer, mas ninguém atende. Já deve estar a caminho com o meu Correio da Manhã, como habitualmente. Por uma vez podia não ser tão infalível. É melhor limpar o sangue, vai fazer disto um bicho de sete cabeças. Devo ter para aqui um par de camisas limpas numa gaveta. Estranho que o cinzeiro infecto que habita solitário a minha secretária esteja ainda cheio do dia anterior, não é coisa que costume escapar a Jennifer, mas aproveito uma beata mais generosa e acendo-a com um fósforo da carteira que trouxe do hotel. Ela soube desde o princípio que era má ideia aceitar este trabalho, mas a Sra. Durant não é o tipo de mulher a quem um palerma como eu saiba dizer que não e quis acreditar que era tudo inofensivo. Umas horas nos sofás de um par de lobbies, três ou quatro perguntas a uma empregada de limpeza bem escolhida, duas chapas sem flash, recolher o segundo pagamento, e jantar uma mariscada nas docas. Não sou parvo: quinhentos contos por um gig de inconsistência conjugal era demasiado. As lágrimas cirúrgicas eram demasiado, aquele vestido às nove da manhã era seguramente demasiado. Quando o corpo do Sr. Durant foi encontrado no dia seguinte, com certidão de óbito prontamente emitida - enfarte agudo do miocárdio -, Jennifer olhou-me com a certeza de que eu seria suficientemente esperto para devolver sem mais perguntas as duzentas e cinquenta mocas da adjudicação, mas há momentos em que a minha estupidez é de uma eloquência invulgar. Não consigo apertar os botões, e, de qualquer forma, já sujei a camisa nova. Sirenes - suponho que é comigo - parecem aproximar-se, mas talvez seja cedo ainda. Até há duas horas achei que a culpa de me ver neste nó era exclusivamente da nova porteira de um velho bar pós-modernista que aparentemente não me conhecia, mas esse alibi, que nem era para mim, devia ter sido mais bem trabalhado. Suponho que já encontraram a Sra. Durant, ouço as sirenes agora na rua, anseio por um doppler que não acontece, o som termina, a porta do prédio abre, o velho elevador desce vazio a pedido. Tinha esperança que Jennifer chegasse antes deles.

 

Gouveia

despesadiaria às 09:00
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