Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

 

Os únicos momentos autênticos da vida acontecem quando a cabeça resvala pelo encosto até à janela do autocarro, onde a vibração da viatura quase rouba o sono durante o tempo de procurar o conforto e novamente adormecer. É nessa fronteira que está a verdade, apenas proferível num sonilóquio que a conjugação do esquecimento (do emissor) com o respeito (do recetor) apagará antes do fim da viagem. Eu nunca soube que a disse, tu nunca saberás quando a esqueceste. Perde-se como se nada fosse, primeiro, e depois como tudo se vai, por entre eucaliptos que se debatem com o nevoeiro ou no deambular do senhor arrastado pela mão por uma bola de berlim. Ocidental, com creme, através do hangar e do cheiro a gasóleo, em busca da saída ou de um bilhete de volta. É para isso, para perdermos os sentidos na sua travessia, que servem as fronteiras. É por isso, e não por culpa da ciência, que a verdade só é maiúscula quando a gramática o exige. Foi para esse efeito, sob o pretexto da mobilidade, que se inventaram os autocarros e as linhas de alcatrão. Nós, ignaros, é que somos incapazes de usar tudo aquilo que nos dão.

 

E.

despesadiaria às 19:32
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