Sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

 

Meu caro amigo Gouveia,

 

Venho confessar, publicamente, um desejo envergonhado que o breve policial aqui publicado há dias me despertou. Sou, aliás, adepto do policial. Gosto do meu policial como gosto do nosso Benfica - vivo e com ânimo. Talvez por isso, desde muito cedo que defini as minhas prioridades de leitura. Sempre achei que fosse pela temática. Mas, não há muito tempo, ao reler o Dennis Mcshade (um abraço, meu querido, que tantas saudades nos deixas - como diria a Sra. Dona Simone), percebi o que realmente me atraía: não é o policial em si, mas sim a tradução. Isso mesmo: a tradução. Fico perdido de amores pela literatura traduzida. Corro para ela e leio em voz alta e digo as frases com os nomes noutra língua. É um entusiasmo que nem consigo, sequer, explicar. Quase infantil, como um miúdo que vai a correr para casa desejoso pelo brinquedo novo, ou como um adolescente enamorado, dou por mim em ânsias. E a verdade é que o génio de Mcshade deixou-nos a mais preciosa das heranças - escrever como se fossemos um autor traduzido. Percebi, com isso, que escrever é como brincar. Quando brincamos sozinhos imaginamos mundos que a vergonha não nos permitirá exibir. Mas, ao escrevê-los, ao fazer literatura, inspirados por desenhos animados ou, pelo menos, pela mesma estética das frases, estamos a recriar uma imaginação antiga, de brincar, como naquela canção do Chico Buarque. Assumo, então, a minha intenção em ler apenas literatura traduzida e de passar a escrever encarnando na pele de um autor americano, sentado na sua secretária num prédio qualquer em Chicago, a brincar com as frases e antecipando a necessidade de tradução. Quero lá saber dos clichés. Que alegria tão grande, este desabafo. Só tenho a agradecer. Um abraço fraterno,

 

jorge c.

despesadiaria às 10:06
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